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Os Tímidos, os Pais dos Tímidos e a Comunicação

O dia 1 de Abril foi dia para ver, seja com os jovens do Grupo Os Tímidos, seja com os respectivos Pais – sim, porque estes também têm uma sessão de Grupo para Pais 😊– algumas questões que podem estar a bloquear, criar ruído, más compreensões, … na comunicação Pais-Filhos.

Os Pais referem que por vezes sentem que os Filhos comunicam em monólogo. O que pode acontecer porque parte do que querem contar fica apenas nas suas cabeças, o que torna de difícil compreensão o que na realidade pretendem partilhar, por falta de dados ou sequência. Outra forma de monólogo é quando os Filhos dizem que não podem ser interrompidos enquanto contam o que têm para contar. Seja de uma forma ou de outra, os Pais sentem-se: frustrados, irritados, tristes, com raiva, chateados, stressados, aborrecidos…

Com os Pais fiz o exercício de reflectirem numa situação em que tenham procurado explicar algo a alguém – que não os filhos – e que não se tenham sentido entendidos. Foi bom para os Pais que, rapidamente, perceberam o exercício e conseguiram muito facilmente colocar-se no lugar dos Filhos. Tal, acredito, permitirá/facilitará o serem mais empáticos, daqui em diante. Procurámos ainda encontrar estratégias que ajudem os filhos a não se ‘perderem’ no que estão a contar e a identificar a importância de desenvolverem o seu poder de argumentação.

Será importante os Pais estarem também eles próprios atentos à sua forma de comunicar e num clima o mais tranquilo possível, dizerem aos filhos que se encontram com alguma dificuldade, por vezes, em compreendê-los. Que desejam muito ultrapassar este obstáculo e que estão disponíveis para tal, pedindo-lhes também a eles Filhos, essa disponibilidade. Dois exercícios que os próprios Pais deram como estratégias a seguir, a partir daqui são: 1) Sempre que o filho quer contar algo procurarem responder às 5 perguntas: O quê? Onde? Como? Quem? Porquê? 2) Outro treino que podem ir fazendo é, através da leitura de pequenos contos em conjunto, recontá-los um ao outro.

Findo o Grupo com os Pais, entrei num outro Zoom com os Filhos. Mais reflexão sobre a comunicação. Os Filhos referem que quando partilham algo e vêem que não são entendidos se sentem: super-irritados e exaustos. Sim, foram estas as palavras usadas! Gostam de falar com pessoas que entendem o que estão a sentir, que os apoiam e que os fazem rir.

Fiz então um exercício em que deveriam desenhar o que eu descrevia – o desenho que tenho na imagem-, sem que eles pudessem fazer perguntas, nem nunca antes tivessem visto o mesmo. No fim, reflectimos sobre o como se sentiram por não poder interromper para esclarecer dúvidas. Respostas: estranho, confusa, … E, confirmaram que o desenho de cada um não ficou igual ao original. Assim, ficou claro que é fundamental ir interagindo ao longo de uma conversa, de um diálogo. Constataram ainda que o que eu ‘vejo’ não é necessariamente o que o outro ‘vê’ quando eu descrevo.

Por fim, vimos outros aspectos que podem interferir na comunicação como por exemplo, durante a mesma: estar a fazer outras coisas ao mesmo tempo (a olhar para o telemóvel, …), estar a pensar noutras coisas, haver barulho de fundo, a própria pessoa que está a tentar passar a mensagem estar a fazer outras coisas, ter alguma inveja da história que está a ser partilhada, ser uma história triste com a qual se identificam.

O que poderão então fazer para estar mais atentos: olhar nos olhos da outra pessoa, acenar com a cabeça, ir dizendo ‘estou a ouvir-te’, fazer perguntas relacionadas com o que está a ser partilhado, se necessário complementar a frase quando a pessoa interrompe e fica sem saber que palavra usar, procurar falar num ambiente calmo, fazer esforço, se necessário, para se focarem no tema, mesmo que não interesse muito. Todas estas respostas foram dos ‘meus’ Tímidos. Eu, como não poderia deixar de ser 😉, finalizei sugerindo a Caminhada como estratégia que em muito pode contribuir para uma boa conversa.

O Amor (Romântico) e a Demência

No âmbito da Comunidade de Leitura, foi-nos lançado o desafio de darmos a ler a uma Amiga Secreta um livro que tenha marcado a nossa vida. Associada à leitura vinha a sugestão de escrevermos uma Carta à nossa Amiga, sobre a obra lida. A mim, calhou-me: ‘O Diário da Nossa Paixão’ de Nicholas Sparks. Partilho aqui a minha carta, até como encerramento do mês dedicado à Demência:

QUERIDA Amiga Secreta 🌻, começo por agradecer a oportunidade de ler um livro que tanto significado terá dado à tua vida.

Ao longo do livro, fui procurando perceber o que tanto terá contribuído para tal. Será o lado romântico da história, como de um conto de fadas se tratasse? A ideia da alma gémea? Do felizes para sempre? Será a dificuldade que a Allie teve na relação com os Pais, sobretudo com a Mãe, por esta querer ditar/escrever o seu percurso de vida? Será a exigência que foi para Allie a tomada de decisão relativa ao seu próprio futuro? Será a forma resiliente e focada com que Noah, foi crescendo financeiramente ao longo da sua vida? Será a forma como Noah suportou a rejeição de Allie, quando eram jovens? Serão as características de Cuidador de Noah, tanto em relação ao seu Pai como em relação a Allie no fim de vida? Que outros ‘Serás?’ me estão a faltar? Quais são serão os teus ‘Foi por este(s) motivo(s)?’

Relativamente a mim, agradeço a oportunidade de ter lido um Romance leve, descontraído, pois, parando para pensar um pouco, já não o fazia há mesmo muito tempo. Foi também uma boa oportunidade para me desafiar a evitar pensar em tudo o que pode estar subentendido/oculto. Em tudo o que é sentido e não é falado. Contudo, não resisto e, verdade seja dita, acho pouco provável que alguns sentimentos menos bons estivessem totalmente ausentes, caso este casal fosse real. Não digo, de todo, que fosse necessário o conflito, contudo, coloco as hipóteses de a Allie viver com alguma culpabilidade e dúvida relativamente ao facto de ter tomado ou não a melhor decisão e, por seu turno, o Noah com alguma insegurança e também culpabilidade, por ter afastado a Allie de uma vida mais social e cosmopolita. Tudo isto faz parte dos casais. A única diferença é que, é importante ser falado, por forma a não deixar construir muros que, a determinada altura ficam intransponíveis. A este propósito sugiro ver a conferência: ‘Alain de Botton: On Love (Sydney Opera House)’

Ouvindo e reflectindo sobre tudo o que Alain de Botton nos diz ficam várias questões nas nossas mentes. A que mais me prende neste contexto é a das ideias que nos são incutidas, desde muito cedo, do Amor romântico, das histórias da Disney e que, de alguma forma, penso que este livro é outro exemplo. Ler histórias como estas faz-nos sonhar, contudo, gostaria que não nos iludissem. O Amor é dos sentimentos.., Não, melhor: o Amor, é mesmo O sentimento mais bonito que existe no mundo. No entanto, tem muitos desafios e é extraordinariamente exigente, caprichoso. Reformulo, tiro o ‘no entanto’ e digo: o Amor é O sentimento mais bonito que existe no mundo, também, por ser exigente e caprichoso. Neste sentido gostaria de citar Alba de Céspedes em ‘O caderno proibido’: ‘«O amor exige demasiado tempo», dizia Clara. «Porque o amor não existe, na verdade: há que inventá-lo todos os dias, a cada momento, e estar sempre à altura da própria invenção. É difícil…»’

Por fim e porque, em tantas situações o aparecimento da Doença de Alzheimer, ou outra Demência marcam com tanta intensidade e significado o fim… Mas, que fim?

Digo eu, o fim de um ciclo e o recomeço de outro, tal como nos diz Miguel Torga

“Recomeça… se puderes

Sem angústia

Sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses

De nenhum fruto queiras só metade.”

E, nesse sentido, a história de Noah e Allie é mesmo muito bonita, tal como a de tantos e tantos outros casais que conheci e conheço. O Amor vence tudo, mesmo as limitações físicas do próprio Cuidador.

Mais uma vez, MUITO obrigada QUERIDA Amiga Secreta por me teres desafiado no amor que sinto por ti, dando a ler: ‘O Diário da Nossa Paixão’ de Nicholas Sparks

A NARRATIVA DA PSICOTERAPEUTA LEITORA

Decorria o ano de 1972, quando, a meio do mesmo, precisamente no Dia Mundial da Criança, nasço. Da minha infância e adolescência, com muita pena minha, resistem poucas memórias. Mas, uma certeza interna, um conforto muito quentinho é o de que a leitura esteve presente em todos os momentos destas etapas da minha vida.
Em casa da minha Mãe, na sala, uma das paredes era ‘forrada’ a livros. Literalmente, de baixo a cima e, da esquerda à direita, só livros!
Em casa dos meus Avós paternos uma das salas, mais do que idêntica a esta! Eram mesmo as 4 paredes que se encontravam decoradas desta forma. O hobbie preferido do meu Avô era encadernar edições especiais, nomeadamente a do centenário do nascimento de Eça de Queiroz – haverá beleza maior do que ter tido a oportunidade recente de reler o Primo Bazílio, aqui? Já o meu Avô materno tinha o hábito de assinar os seus livros na 1ª folha. Faço o mesmo! Faz-me sentir mais próxima dele!
E, muito, muito importante, o amor da minha querida Avó Luísa, não apenas pela leitura, como também pela escrita. Nomeadamente de Poesia, tendo escrito alguns poemas dedicados a filhos e netos.
Já me estou a desviar… Falava eu no meu amor pela leitura. Penso que a primeira responsável foi: Enid Blyton. Perdia-me entre a ‘As gémeas’ e ‘Os cinco’. Que malandrices e aventuras tive oportunidade de viver! Sempre fui a mais ‘betinha’ do meu grupo de amigos, daquelas que fazem tudo certinho – Não há paciência! Mas, As Gémeas permitiam-me fugir à regra. E Os Cinco… Esses…, davam-me as ideias para o que eu podia inventar, explorar… sempre que ia para Sortelha para casa dos meus Avós. Os livros ‘Patrícia’ de Julie Campbell, eram uma necessidade, não apenas pelo meu nome na capa, como, coincidência das coincidências: a sua autora nasceu no dia 1 de Junho!!!
Entretanto, fui crescendo e passando para outros que havia lá em casa, como ‘As memórias de Adriano, da Yourcenar, ‘A Pérola’ do Steinbeck, ‘Terra Bendita’ da Pearl Buck, ‘Amor nos tempos de cólera’ de Gabriel Garcia Marquez e tantos, tantos outros… Eram horas e horas a ler – em casa, no carro, em todo o lado – como a Rádio Comercial!
Até que me ‘cruzo’ com a Jane, sabem, a ‘Jane Eyre’ de Charlotte Brontè… Quem sabe se terá sido, também aí, que começou a germinar em mim o amor por me dedicar a pessoas que têm uma infância e adolescência desprovidas de afecto e que, na sequência de tal, desenvolvem uma busca constante pelo amor ideal, sem se darem a oportunidade de olharem para si e aí encontrarem equilíbrio e amor próprio?
Depois…, vieram as leituras obrigatórias… Ah! ‘Os Maias’ que enlevo, que sonho, que alegria, que viagem bonita para o mundo do Eça. E, ainda para mais, ter a oportunidade de, contemporaneamente, ir a algumas óperas no São Carlos, imaginar-me enquanto personagem da época… Saber que estava a pisar o mesmo chão, ver o mesmo teatro que os olhos do Eça também tinham perscrutado… Contudo, como obrigatório, veio também Miguel Torga…. ‘Bichos’, confesso que ainda não reli, sei que eventualmente preciso de lhe dar essa oportunidade passados agora 25 anos. Porém, na altura foi um verdadeiro tormento. Um mau estar imenso… Ao ponto de, ainda hoje sentir a enorme agonia da mulher que entra em trabalho de parto à medida que sobe um monte. Senti demasiada crueza, acredito que, muito fiel à dureza da realidade, mas muito intenso para mim que tanto desejava ser Mãe. O que me leva, a outra reflexão: recentemente a tão adorada Comunidade de Leitura da Biblioteca Pública de Évora, da qual tenho o enorme privilégio de ser membro, desafiou-se a ler ‘Aparição’ de Virgílio Ferreira. Que experiência deliciosa, agora aos 50! Aos 17, sei que teria muita dificuldade em entender o livro e que me poderia ter feito algum mal. Tenho dificuldade em entendê-lo como livro para ser estudado no secundário, sem que exista um bom enquadramento e suporte emocional para a sua compreensão.
Estou já a falar da leitura colectiva… A ela quererei voltar, mas não sem primeiro partilhar a minha primeira experiência de leitura em grupo. E essa foi, ainda no secundário, quando dois grandes amigos e eu, começámos a ler ‘As brumas de Avalon’. Que experiência bombástica, os 4 volumes. A partilha, a ansiedade, a alegria sentida… Não nos contivemos, precisámos de organizar uma viagem rumo a Stonendge e ao túmulo do Rei Artur… E, tudo isto, com 21 aninhos. E eu, agora, ansiosa por a minha filha de 23, viver fora e se fartar de viajar, conhecer mundo… Realmente, como mudam as nossas perspectivas em função do ponto onde nos encontramos…
Falava eu na minha filha. Com o nascimento dos meus filhos, o início da vida activa, o enorme amor e dedicação que tive ao trabalho, aos diferentes locais por onde passei, os livros passaram para um plano algo distante… Até que, descobri… Espera, eu tomo o pequeno-almoço sempre mais cedo do que todos em casa. De manhã, estou sempre muito desperta e activa. Ler durante o pequeno-almoço, vai dar-me toda uma outra alegria e bem-estar para o dia. E, assim foi, que se instaurou este meu ritual, que para quem convive comigo já sabe: é ‘sagrado’. Por quem comecei? Pelo meu tão adorado Irvin D Yalom. Sentia-me sequiosa de romances e, em simultâneo, de livros que me aproximassem do meu trabalho clínico: ‘A psicologia do Amor’, ‘Quando Nietzsche chorou’, ‘A cura de Schopenhauer’, … Ou, de Viktor Frankl ‘O homem em busca de um sentido’…
Ups! Apercebi-me agora de que saltei um passo bastante significativo. Sabem, aquela hora deliciosa de deitar os nossos filhos? Bem, isso para mim, já é passado! Ainda no outro dia foi o meu filho Tomás que me veio dar o beijinho de Boa Noite à cama! Mas, dizia eu, esse momento de ternura, de relação, de tranquilidade, de passagem para outro lugar, onde podemos descansar e recuperar a energia para o dia seguinte. O que podemos ter que seja tranquilizador e não activador como algumas conversas que se têm por vezes à hora de jantar? E, neste momento, qual é uma das melhores estratégias que podemos utilizar? Uma, que nos possibilita transmitir valores, reflexões, histórias que nos permitem sonhar, nos fazem acreditar em nós?
O livro. Esse mesmo! A leitura. Para quem já leu a uma criança, sabe/sente o valor imenso destes momentos. Promovam-no! Não sei como será a experiência de ter 3 ou mais filhos, mas ter dois, com 3 anos de diferença, foi também desafiante. Exigia a escolha de livros que fossem estimulantes para ambos e, claro, a negociação: uma noite deitava-me na cama de um e, na noite seguinte, na cama do outro. Estes eram dos momentos a 3 que mais amávamos. E… tenho que confessar aqui o meu Guilty Pleasure. Quando percebi que os dois já estavam preparados para ouvirem os livros de ‘Os Cinco’!!! Não vos consigo dizer com toda a certeza, mas muito provavelmente fui eu a quem mais adorou estes momentos, pois pude reler esses livros, que sei que não iriam ser uma prioridade, atendendo ao enorme volume da minha TBR – TBR aquelas siglas modernas que agora se usam, no fundo, a minha Lista de Livros Por Ler! Bem, mas nem tudo são partilhas positivas. Preciso confessar aqui algo infame: não gosto, ou talvez não entenda o ‘Principezinho’ de Saint-Exupéry. Mas, lido mal, com esta verdade. Então, pensei que lendo o livro aos meus filhos, eles me ajudassem a ver, sentir, compreender as mensagens… Não conseguiram…
Não conseguiram com ‘O Principezinho’, contudo, encontraram eles próprios outras leituras e desafiaram-me. Dois exemplos maravilhosos que me envolveram muitíssimo. A sugestão da Teresa: ‘O mundo de Sofia’ de Jostein Gaarder e, do Tomás: ‘Aristóteles e Dante descobrem os Segredos do Universo’ de Benjamin Alire Sáenz. Ambos, livros que tenho recomendado a adolescentes que acompanho em psicoterapia e, de quem tenho tido, mais do que uma boa adesão, a partilha de reflexões sobre outros aspectos que eu ainda não havia identificado no livro
E, foi também aqui, que comecei a sentir o enorme potencial da literatura na psicoterapia. Na realidade foi um sentir muito pouco consciente na altura. Acontecia com uma naturalidade tão ingénua, até. Ouvia as partilhas que me iam fazendo e, pensava: que extraordinário que seria se esta pessoa lesse o livro x… O quanto é que determinada leitura poderia:
• estimular sentires
• ajudar a sedimentar ideias
• provocar a vivência de emoções que por vezes estão encapsuladas
• afastar a ideia de que somos só nós a sentir determinadas coisas
• estimular a acção/o fazer diferente
• promover a verbalização de algumas coisas que até então não estavam claras no pensamento
• amplificar a reflexão e análise de alguns aspectos do nosso comportamento
• ajudar a compreender as atitudes de outros para connosco
• estimular a imaginação, o sonho, o querer sair da rotina
• um sem fim de possibilidades…
Os livros, imperativamente, têm que estar no meu consultório. A meio da sessão levanto-me e, lá vou eu buscar o livro x. Por norma, sei sempre onde está. O meu lado obsessivo é bastante tranquilizador. Organiza-me e organiza os livros por temas. Se estou com alguém que se vê bastante embrulhado com questões traumáticas, Sugiro ‘A Bailarina de Auschwitz’ de Edith Eger. Alguém com tendência depressiva, da minha geração, com relações delicadas com os Pais, a auto-biografia do Bruce Springsteen. Alguém que tenha um familiar num lar, ‘Misericórdia’ da Lídia Jorge, ou, se gostam de banda desenhada, para este mesmo tema: ‘O mergulho’ de Séverine Vidal, com ilustração de Victor Pinel. Uma mulher nos seus 40, ensandwichada entre o cuidar da mãe/avó, um casamento algo desgastado, filhas na adolescência, ‘Eliete’ da Dulce Maria Cardoso…. Enfim, estes são apenas alguns exemplos. Sendo que, é importante clarificar, não são taxativos, isto é, nem sempre os recomendo, pois cada pessoa/cada situação, tem demasiados contornos e é por demais complexa para que o que faça sentido a uma pessoa faça igualmente sentido a outra que está a vivenciar algo semelhante
Acontece que, este processo não foi/não tem sido, unidireccional. De forma muito natural, começaram a surgir as sugestões dos próprios clientes. E, tem sido com muitos deles, muitos Pais de crianças ainda pequenas, que descobri o ENORME potencial da Literatura Infantil! Que coisa bonita! Como é que se consegue este poder imenso de, com tão pouco texto, acompanhado de imagens bonitas, bem sei, mas com tão pouco de palavra escrita, chegar a emoções e pensamentos tão profundos?
Já me alonguei bem mais do que era a minha intenção inicial. Porém, não posso terminar, sem desejar a todos LINDAS viagens pelo mundo das emoções e reflexões que a leitura nos proporciona

SuperViver ou sobreviver? – a Aceitação

Gostaria de partilhar o Caso Prático que debati hoje com os participantes no 7º Encontro de Profissionais “Cuidados a Prestar na Demência – Uma abordagem Prática e Integrada”, da Alzheimer Portugal

Família: Maria 55 anos, seu marido de 75, com Doença de Alzheimer (diagnosticada há 1 ano) e filha de ambos de 21 anos (a finalizar licenciatura)

A experiência que a Maria teve no Grupo Psicoeducativo em que participou foi, segundo a própria, muito enriquecedora. Até à data, apenas tinha tido oportunidade de se informar sobre Demência na internet e em atendimentos psicossociais com uma assistente social. A Maria refere que esses movimentos foram importantes até porque a conduziram à participação no Grupo. Acrescenta que o Grupo lhe permitiu tomar maior consciência que não está sozinha e que existem outras pessoas a passar por algo semelhante. Foi também muito importante, pois uma das outras participantes cuidava do marido com o mesmo tipo de Demência, mas há mais anos, o que ajudou a Maria a perspectivar a possível evolução da doença e a reflectir sobre forma como os filhos dessa senhora acompanhavam os pais.

Quero SuperViver, Patrícia”, dizia-me a Maria numa sessão, após partilhar a sua reflexão em como a aceitação e convivência com a Demência do marido se trata de um processo: “aceitar e fazê-lo com Amor trata-se de um processo, não basta clicar num interruptor para pôr a funcionar. Foi necessário passar pelo Grupo Psicoeducativo e recorrer à Psicoterapia Individual para ir permitindo que tantas coisas que foram ditas no Grupo passassem a fazer sentido. Sei que não vou e, não quero, abdicar de dar continuidade à história do meu marido, em tudo o que esteja ao meu alcance. Contudo, quero igualmente SuperViver. Percebi que andava a sobreviver e que isso me tornava uma pessoa amargurada, uma pessoa de mal com a vida de uma forma geral e de mal com os outros.

Na sessão anterior falámos na minha dificuldade em dar um abraço, lembra-se? Por coincidência, ou não… Será que há coincidências?… A minha irmã veio visitar-me e deu-me um. Retribui gestualmente, mas sem entrega. Uns dias mais tarde a minha irmã telefonou e.. falou do abraço. Sabe o que me disse? Que sentiu que eu não estive nesse abraço e que até identifica o motivo. Pedi para me explicar um pouco melhor.

Aí, a minha irmã partilhou que sente que eu estou desiludida com ela, pois não me acompanhou a consultas com o meu marido nem em tantas outras situações. Que estou desiludida com a minha filha pois não me tem apoiado em tantos momentos, no cuidar do pai e também, que estou desiludida, por motivos diferentes, com o meu marido. Patrícia, que BOM que foi este momento com a minha irmã. Sabe o que eu lhe respondi? ‘Sabes mana, eu não precisava que me acompanhasses às consultas e nessas outras situações críticas que referes, aí, eu precisava ser forte, não dar espaço à emoção. Eu teria precisado, e continuo a precisar que te sentes comigo no sofá para eu poder encostar a minha cabeça, que façamos, juntas, uma caminhada, como a que fizemos no outro dia. E sim, tens razão, por vezes ainda me é difícil aceitar que o meu marido está com uma Demência. Eu sei que não é da responsabilidade dele. Mas, não deixo de me sentir abandonada enquanto esposa e enquanto mulher’. Sabe Patrícia, uns dias depois desta conversa com a minha irmã, dei por mim a abraçar o meu marido. Não sei há quantos meses, ou melhor, anos, eu não o fazia!”

A sessão continuou… Já bem no fim a Maria partilhou algo que tem vindo a adiar, mas que tal como a própria diz: “Se é para estar nisto – referindo-se à Psicoterapia – é para ir fundo!”. Partilhou então a angústia que tem sentido no campo da intimidade com o seu marido, pois este manifesta o seu desejo sexual pela sua mulher, porém desde há muito que a Maria se confronta com uma dualidade, não entendendo bem ou não conseguindo separar o seu papel de cuidadora, do da sua função de esposa. Por outro lado, estão também presentes as questões da sua sexualidade enquanto mulher jovem e, tantas e tantas outras coisas. Estávamos no fim da sessão, este é o tema com que, muito provavelmente, iniciaremos a próxima. Contudo, mesmo antes de terminarmos a Maria pergunta-me: “Patrícia, será que o meu mau feitio matinal com o meu marido e com a minha filha está relacionado com o que acabei de partilhar?

(Este caso é inspirado numa história real, tendo sido alterados nomes, pessoas e factos, com vista a preservar o anonimato da família)

sub, sobre ou SuperViver

Propositadamente com minúsculas. É assim que eu sinto estas duas primeiras formas de estar na vida – subviver e sobreviver: minúsculas, pequenas, despercebidas, opcionais, a respeitar. Em certos ciclos, em certas fases, até necessárias, mas sempre minúsculas. Há também quem opte por ‘ir tocando a vida em frente’ sempre e apenas, sub ou sobrevivendo. Tudo bem… Ou melhor, como está agora tão em voga: ‘Vai Ficar Tudo Bem’.

Porém, comigo, esta forma de estar na vida não condiz. Enquanto pessoa, enquanto mãe, enquanto amiga, enquanto psicóloga, enquanto terapeuta familiar, enquanto moderadora de grupos, contem comigo para SuperViver!!! Para Viver com Maiúsculas, em Grande, Apercebendo-nos de tudo o que se passa ao nosso redor. E quando digo tudo, é mesmo tudo! Não apenas a alegria, a felicidade, o amor, o carinho, como também, a tristeza, a raiva, a mágoa, a saudade, a angústia. Pois acredito que, apenas vivendo intensamente as nossas emoções, os nossos sentimentos e permitindo-nos examiná-los com atenção, com dedicação, com admiração, valorizando-os, podemos tirar pleno partido deste Magnífico Dom que é a nossa Vida.

No ano e mês em que nasci, Junho de 1972, foi lançada esta música:

I can see clearly now, the rain is gone,

I can see all obstacles in my way

Gone are the dark clouds that had me blind

It’s gonna be a bright (bright), bright (bright)

Sun-Shiny day.

I think I can make it now, the pain is gone

All of the bad feelings have disappeared

Here is the rainbow I’ve been prayin’ for

It’s gonna be a bright (bright), bright (bright)

Sun-Shiny day.

Look all around, there’s nothin’ but blue skies

Look straight…

(I Can See Clearly Now, de Johnny Nash)

Quem sabe se, o Johnny Nash, não pretendia deixar-me exactamente esta mensagem: “Patrícia, existirão muitas nuvens negras na tua vida, dias chuvosos. Contudo, serão eles que te permitirão tirar partido dos dias de sol, céu azul e das cores do arco-íris da vida”

Não sei se já consigo ver tudo com a clareza do Jonny Nash, mas sei que todos os dias SuperVivo com a intenção de procurar clareza para mim e para os que me rodeiam.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Adoro a adolescência

Adoro a adolescência: a minha, a dos meus filhos, a dos amigos dos meus filhos, a dos meus clientes… Enfim, adoro a adolescência! Adoro, acima de tudo, por ser uma fase da vida com tanto potencial. É como se, finalmente, tivéssemos o poder e o privilégio de decidir o nosso caminho. Ainda precisamos dos limites da família, sim, mas a possibilidade de escolhermos o caminho que pretendemos trilhar fascina-me.

Para podermos escolher o nosso percurso, precisamos experimentar muitas coisas novas. E, é nesta experimentação que nos podemos perder, deixar de ter foco e ficarmos apenas a navegar em oceanos e mares desconhecidos, eventualmente até, de forma bastante prazerosa a curto prazo, mas que a médio/longo prazo nos pode conduzir a um vazio imenso, sem conseguir ver no horizonte um farol que nos guie.

Foi tendo tudo isto em linha de conta, que me surgiu a ideia de constituir um Grupo de Partilha para Adolescentes. Tantas outras respostas terão surgido a outros psicólogos ou técnicos interventores junto de adolescentes. A mim, fez sentido a constituição de um Grupo, pela prática que trago já enraizada em mim, de constituição de Grupos e, pela mais-valia que confirmo que estes trazem aos seus participantes. E, também, porque é de adolescentes que estamos a falar, isto é, de pessoas que constroem a sua identidade, o seu foco, precisamente em grupo, no grupo de pares.

Outros dois aspectos que tive em consideração foram: família e confinamento. Que grande desafio estes jovens tiveram que enfrentar! Eles e, as suas famílias, sem dúvida! Contudo, é para eles que se dirige o meu foco, a luz do meu farol. Dois meses de #FiqueEmCasa com a família que corresponderam a dois meses de #SemSairdeCasa com os amigos e namorados(a)!!! Deveras desafiante!! Quantas emoções boas e menos boas terão sido vivenciadas por estes jovens… Falar sobre estas, em Grupo, trazer-lhes alguma normatividade, será importante para baixar alguma tensão que possa estar a ser vivenciada ou para sublinhar algumas conquistas que tenham sido conseguidas.

Por fim, a seguir ao confinamento, vem o desconfinamento que, no caso dos jovens do 11º e 12º anos, significa o regresso às aulas presenciais. O voltar a uma escola, agora muito silenciosa, com medidas de segurança necessárias, mas geradoras de algum stress, com o voltar a ver amigos a quem apetece abraçar e beijar, como dizia a minha colega Sónia Parreira no Psicologia em Reflexão desta semana, mas a quem unicamente podemos olhar nos olhos a uma distância de 2 metros…

Assim, juntando todos estes factores, constituí um Grupo de Partilha para Adolescentes que teve início no dia 15 de Maio, Dia Internacional da Família.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

A família e a tangerina

A família e a tangerina!? Pergunta-se a si mesmo, qual a relação? O que podemos encontrar de semelhante entre uma família e uma tangerina? O que podemos encontrar de diferente? O que leva alguém a estabelecer uma comparação entre um conceito tão complexo como o de uma família e um conceito tão simples como a tangerina?

A tangerina tem um grande valor nutritivo, sendo fonte de vitaminas A e C e sais minerais como potássio, cálcio e fósforo, essenciais para o nosso bem-estar físico. A família tem um grande valor nutritivo. A família é fonte do amor que nos nutre. Amor, é elemento essencial para o nosso bem-estar emocional.

Popularmente, a tangerina é conhecida pelo seu efeito diurético, digestivo e aumento na eficiência física. Popularmente, a família é conhecida pelo seu efeito nas aprendizagens que realizamos e na eficiência social que adquirimos.

Tangerinas, há umas maiores outras mais pequenas, umas com cores mais viçosas, outras com cores mais apagadas. Umas maduras, outras verdes. Famílias também podem ser maiores ou mais pequenas. Umas plenas de vigor, outras mais comedidas. Umas famílias mais jovens, outras com uma longa história familiar.

Em algumas tangerinas, a casca está muito colada aos seus gomos, sendo difícil descascar. Em outras, protege, mas destaca-se facilmente. Em algumas famílias, facilmente se atravessa a fronteira com o mundo exterior, com a segurança de que se pode voltar sem nada se ter rompido. Em outras famílias, os diferentes elementos apenas se mantêm intactos e unidos, se não se atreverem a ‘descascar a tangerina’.

Os gomos das tangerinas, esses, também eles estão por vezes muito colados uns aos outros, outras vezes separam-se com facilidade, conseguindo manter a sua autonomia, sem se desfazerem quando descolamos uns dos outros. E, se os voltarmos a unir, facilmente se encaixam de novo. Outros gomos estão tão colados uns aos outros que não os conseguimos separar sem estragar. Também nas famílias, alguns elementos conseguem o equilíbrio entre o sentimento de pertença e a efectividade da autonomia. Outros elementos estão tão fusionados que não se conseguem separar sem que se rompam.

Às vezes, na mesma tangerina, encontramos uns gomos mais doces outros mais azedos. Nas famílias, nem todos os elementos são doces e carinhosos. Contudo, nas famílias, azedo não tem que ser necessariamente mau. Podem ser as pessoas que têm uma forma de estar mais seca, mais fria, mas que têm um papel importante no equilíbrio familiar.

Por vezes, os gomos têm caroço – essência para nova vida, outras vezes bastam-se a si mesmos. Por vezes, os elementos de determinada família optam por ter filhos. Outras vezes, por não ter.

Quando as tangerinas não são colocadas em ambientes protectores, murcham. Quando as famílias crescem em ambientes desprotegidos, podem involuir.

A complexidade das famílias é de uma beleza sem fim. Assim como o é a simplicidade das tangerinas. Não descomplexifiquemos as famílias. Contudo, atribuir-lhes alguma simplicidade pode facilitar a leitura de alguns aspectos que podem ser de mais difícil resolução.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Prosa de uma mãe que recebe um poema épico!

dia mae 1

Poema, porque se encontra em forma de composição poética, porém, talvez, também o possamos considerar uma epopeia, pois tem por assunto acções grandiosas – Amar é exigente! Prosa, porque se pretende como uma conversa informal, descontraída, enfim, uma série de palavras dispostas sem obediência a metro nem a rima, que surgem do sentir espicaçado por este poema épico.

‘Tenho um coração só para si’, tão verdade este verso! Importante ler ‘um’ e não ‘o’ e, aqui, reside uma diferença que me parece fundamental para tantas mães, para tantos filhos. O nosso coração não é por inteiro da nossa mãe, dos nossos filhos. Nele habitam igualmente outras pessoas, outros interesses, outros desejos.

Este coração ‘dança, canta, ri’, contudo, também ‘fica triste e chateado’. Pois sim, é neste equilíbrio que se constrói, que se conjuga, que se avoluma o Amor.

E como é esse Amor? ‘Ama vulneravelmente’ diz a minha poetisa. E, o que é a vulnerabilidade? Um dos conceitos mais bonitos quando falamos de relações. Um dos conceitos mais delicados. Um dos conceitos mais fundamentais quando queremos estar nas nossas relações por inteiro. Aceitar que nas relações caímos, levantamo-nos e, conseguimos “fazer frente”. Aceitar que não somos suficientemente boas mães ou suficientemente bons filhos. Erramos, porém, estamos inteiros na relação aceitando que não é possível prever e controlar tudo. Escutamos, praticamos a bondade e somos gentis.

E, o coração, conhece o abraço. Mesmo nestes tempos em que estamos tão longe do abraço, se escutarmos o nosso coração iremos ouvir tudo o que o silêncio, a força e o aconchego dos anteriores abraços nos transmitiram de coração para coração.

Por fim, a voz, a voz que aconselha e não a voz que dita ordens. A voz que guia com respeito, com admiração, com acreditar, com positividade.

A todos os filhos e mães deste planeta, um FORTE abraço.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

A mais-valia dos Grupos de Suporte para Cuidadores Informais

“A demência e outros quadros neuropsiquiátricos ligados ao envelhecimento determinam uma carga significativa na sociedade em geral e nas famílias em particular. As apresentações clínicas envolvendo aspectos familiares são múltiplas e ocorrem independentemente do diagnóstico (doença de Alzheimer e outras demências, depressão ou outras doenças mentais do idoso).” (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2011).

Mesmo famílias funcionando habitualmente bem, com papéis bem definidos, relações afectuosas em que impera o respeito, regras de conduta adequadas, comunicação clara e aberta, flexibilidade, capacidade de adaptação e relação com outros grupos, são famílias que sofrem, com frequência, dificuldades na doença. Por seu turno, as famílias com dificuldades pré-existentes terão necessidades acrescidas de apoio. Em ambos os casos será necessário providenciar informação sobre a patologia e apoiar na melhoria das competências para lidar com a mesma.

“Sendo inquestionável a base biológica da maioria dos quadros psicogeriátricos (e.g. demências, depressões de início tardio), as características da pessoa doente (como a personalidade), da sua doença e dos seus familiares interagem dinamicamente, com impacto no funcionamento da família (e.g. coesão e adaptabilidade), nas emoções expressas, na sobrecarga familiar ou, até, nas manifestações clínicas.” (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2011).

Conflitos no seio das famílias constituem-se enquanto obstáculo à tomada de decisão em relação a determinados aspectos da vida da pessoa com doença crónica. A intervenção sistémica surge como meio para restabelecer a comunicação entre todos por forma a conseguir uma concertação familiar no que concernem os melhores cuidados a prestar à pessoa doente. (Cantegreil-Kallen e Rigaud, 2009)

Como já se referiu, por vezes a tensão familiar é anterior à necessidade de cuidar, assim pode acontecer, as motivações altruístas para colaborar estarem encapsuladas em conflitos passados, não resolvidos. Exemplos destes podemos encontrar em filhos que discordam em como lidar com os sintomas comportamentais e psicológicos da demência ou na forma como os cuidadores principais são por sua vez cuidados pelos restantes familiares; outros exemplos podemos encontrar numa relação de casal onde existe culpa subjacente ou situações de agressão mútua anteriores. Pode não ser possível ou mesmo necessário a família enfrentar tudo isto, e como tal abordagens suficientemente construtivas são necessárias. É importante que os técnicos evitem ficar encurralados em acusações mútuas infindáveis, por forma a que consigam ajudar a família a construir objectivos comuns (Gonçalves-Pereira, 2017)

A taxa de participação de famílias onde existe doença crónica, em terapia familiar é baixa e os motivos para tal mais apontados têm sido: os conflitos familiares que são, muitas vezes, de longa data, o que leva a que a perspectiva de os reactivar, através de terapia, provoque receio em alguns membros da família. Outras vezes, os membros que não coabitam com a pessoa doente não identificam a necessidade de terapia, fora das situações agudas. Por vezes os conflitos estão tão centrados nas questões financeiras que se vê a terapia familiar como inadaptada. Outras vezes a própria nomenclatura: pessoas que referem que nunca foram uma família, assim, que sentido faria uma terapia familiar? O facto de as sessões serem pagas pode também ser um obstáculo à sua concretização (Benbow e Sharman, 2014)

Sendo relativamente baixa a taxa de participação destas famílias em Terapia Familiar, torna-se necessário encontrar soluções alternativas para problemas comuns nestas famílias. Acreditamos que em Grupo de Suporte se torna possível trabalhar sistemicamente algumas das questões que seriam abordadas em Terapia Familiar.

Pensando o termo sistémico, a designação aplica-se não só a um tipo específico de terapia, mas sobretudo ao conceito de pensar em famílias, pensar em sistemas. Sabe-se que os resultados da psicoeducação familiar, podem ter impacto sistémico na família, ainda que não seja esse o foco da intervenção. Na verdade, tem sido sugerida uma maior inspiração sistémica das intervenções com Cuidadores e, mesmo nas demências, o desenvolvimento de abordagens com doentes e familiares em conjunto, de forma a ultrapassar algumas das limitações acima referidas. O pensar sistémico não implica, por si, uma intervenção tecnicamente classificada como tal. Com efeito, há até evidência de que intervenções dirigidas primariamente a doentes, na área farmacológica ou na área da terapia ocupacional, podem acarretar benefícios indirectos para os familiares. Inversamente, há eventuais benefícios da psicoeducação familiar para os próprios doentes, em termos de sintomas ou no atraso da institucionalização.” (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2011).

Considerando que a figura do Cuidador familiar representa um elemento crucial na prestação de cuidados à pessoa doente, mas que essa responsabilidade pode constituir uma ameaça à sua saúde, debilitando-a então, o risco de institucionalização da pessoa dependente aumenta e, o Cuidador familiar corre o perigo de se tornar mais um paciente do sistema (OMS, 2012). Considerando igualmente que os Cuidadores familiares se sentem, tantas vezes, muito sozinhos “a navegar num oceano imenso” (Correia e Gouveia-Pereira, 2016), sem terem um rumo, uma rota que os oriente, torna-se fulcral, avaliar a forma como perspectivam o seu estado de saúde e a sua satisfação com a vida, por forma a assegurar a continuidade da sua disponibilidade familiar. Este é um alerta para a necessidade de um reconhecimento crescente do Cuidador como ‘paciente oculto’ e que permite pensar a necessidade de formas de intervenção adequadas.

Para os familiares, a participação num Grupo de Suporte para pessoas que se encontram a vivenciar situações semelhantes, acreditamos que possa ser uma experiência com valor terapêutico, tanto pelo suporte recebido dos outros participantes, como pela oportunidade de partilhar a sua própria experiência e dar suporte a outras pessoas. Participar num Grupo de Suporte permite ainda aliviar os sentimentos de solidão e de isolamento social, e possibilita a troca de experiências e reflexão sobre si mesmo. Por fim, o apoio sentido num Grupo de Suporte permite aos familiares sentirem segurança no alcance dos seus objectivos e devolve esperança. “O trabalho com Grupos de Suporte para pessoas vivendo uma situação de doença, especialmente aquelas que envolvem riscos de perdas e ou mudanças no funcionamento pessoal e familiar, não é fácil, mas pode revelar-se uma boa oportunidade para desconstruir mitos e preconceitos e para a elaboração dos afectos mobilizados pelo processo de adoecer.” (Oliveira et al, 2010)

O Grupo contém em si próprio e, por sua vez, propaga alguns factores protectores como o constituir-se como uma rede de suporte, promove habilidade para retirar aspectos positivos de muitas das situações enfrentadas pela família, contribui para dar significado ao acto de cuidar, constitui-se enquanto local para partilha de informação, aquisição de alguns conhecimentos mais específicos, não só relacionados com a própria doença mas também com aspectos práticos do cuidar. A pertença a um Grupo contribui também para dar sentido à vida, para contrariar o isolamento. O Cuidador sente que tem alguém interessado em si, na sua saúde física, psicológica e social.

A realização de Grupos de Suporte requer a criação de um setting em que os seus participantes possam partilhar as suas experiências e sentimentos com a segurança de serem compreendidos pelos restantes. Ao oferecer apoio emocional e informação/orientações, estes grupos facilitam a percepção da situação real, por meio do conhecimento de dados mais concretos sobre o problema e diminuição das fantasias a ele relacionadas, ajudando a enfrentar o stress vivenciado. Este processo é viabilizado pela oportunidade de aprender novos comportamentos.

As diferentes revisões e meta-análises referentes à efectividade das intervenções familiares com Cuidadores não são consensuais (Gonçalves-Pereira e Sampaio, 2010). No Programa do #SocializeEmCasa, Talking Therapy  – um Programa de Cuidados e Afetos, em Família, da próxima 5ª feira, dia 23 Abril, teremos oportunidade de conhecer a experiência vivenciada por um dos membros do Grupo Amar e Cuidar e, talvez concluir que, “A escassez de evidência não significa necessariamente ausência de eficácia, até porque a evidência qualitativa que decorre da impressão clínica e da maioria das intervenções publicadas é muito favorável à implementação deste tipo de trabalho.” (mesmo artigo)

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Bibliografia

– Benbow SM, Sharman V. Review of family therapy and dementia: twenty-five years on. Int Psychogeriatr. 2014; 26 (12): 2037-50

– Cantegreil-Kallen I, Rigaud AS. Systemic family therapy in the context of Alzheimer’s disease: a theoretical and practical approach. [La therapie familiale systemique dans le cadre de la maladie d’Alzheimer: approche theorique et pratique]. Psychol Neuropsychiatr Vieil. 2009;7:253-263

– Correia, I e Gouveia-Pereira, M (2016) Anos a Viver o Fim. Editora: Chiado

– Gonçalves-Pereira M, Marques MJ, Grácio J (2017) Family Issues in Behavioral and Psychological Symptoms of Dementia: Unraveling Circular Pathways? (pp 331-348; Cap.15); Gonçalves-Pereira M. Toward a Family-Sensitive Practice in Dementia. (pp 349-368; Cap. 16). In: Verdelho A, Gonçalves-Pereira M. (Eds.): Neuropsychiatric symptoms in cognitive impairment and dementia. Springer. ISBN: 978-3-319-39136-6

– Gonçalves-Pereira M, Sampaio D (2011). Psicoeducação familiar na demência. Da clínica à saúde pública. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 29(1): 3-10.

– Gonçalves-Pereira M, Sampaio D (2011). Trabalho com famílias em psiquiatria geriátrica. Ata Médica Portuguesa,24(S4):819-826.

– Oliveira, L et al, Grupo de suporte como estratégia para acolhimento de familiares pacientes em Unidade de Terapia Intensiva, Rev Esc Enferm USP 2010; 44(2):429-3

– Organização Mundial de Saúde (2012) Dementia: a public health priority. World Health Organization

Quando o isolamento social não é novidade

Ontem, em sessão, com o João, procurei reflectir em conjunto sobre este início de pensamento que tem ocupado, em muito, a minha mente e coração, ao longo deste último mês.

No dia em que decretaram o período de contingência, eu pensei: ‘Bolas, logo agora! Logo agora que o João estava a fazer um percurso ascendente no sentido de se ir desligando da sua fobia social e de ir saindo da sua depressão. Logo agora, com tanto progresso conseguido!!! Como é que irá ser? Qual será agora o meu papel? Que orientação poderei encontrar, em conjunto com o João, para conseguirmos levar a psicoterapia a bom porto, evitando novo retrocesso?’

Não tem sido fácil para nenhum dos dois e, falamos sobre isso. Estamos juntos há mais de um ano e alguns avanços foram sendo conseguidos, porém, igualmente, houve alguns recuos, próprios de uma psicoterapia. Tendo um deles, mais grave, culminado com um internamento hospitalar em psiquiatria. Este último, apenas há 3 meses. O João estava agora a readaptar-se às tarefas no seu emprego e ao dia-a-dia em casa com a sua companheira.

O relacionamento consigo próprio, com a mulher com quem é casado há 8 anos, com a família alargada, com os colegas de trabalho e os poucos amigos, seria agora o próximo passo. Como dá-lo? Como dar esse primeiro passo e seguintes, fazer caminho, sem a Walking Therapy (saber mais), que se tem revelado como uma ferramenta bastante útil e positiva com o João, na medida em que o exercício físico e o contacto com a natureza têm um papel muito significativo na melhoria de alguns sintomas mais depressivos e de ansiedade? Por outro lado, a Walking Therapy tem igualmente contribuído para a diminuição dos receios do João no contacto com as pessoas, dado que, terapeuticamente, optamos por caminhar no Paredão do Estoril e não, em locais mais isolados. Com a recomendação “Fique em casa”, o João conseguiu a ‘permissão governamental’ para o seu mais profundo desejo: ficar em casa e não se cruzar com nenhum outro humano a não ser a sua companheira.

Assim, não sendo possível voltar a recorrer a esta ferramenta terapêutica, teremos de nos reinventar, procurar alternativas. Teremos de encontrar soluções!

Esta é parte da minha história, da minha relação terapêutica com o João. Tenho a certeza de que não somos os únicos a passar por isto. Eu própria tenho outros clientes individuais, casais e mesmo famílias para quem este período se constitui como uma possível ameaça para a evolução do processo terapêutico. Muito à minha semelhança, não vou aqui dar sugestões de estratégias a adoptar. Essas surgem na relação única entre psicoterapeuta e cliente. No entanto, também muito à minha semelhança, gostaria de partilhar que acredito profundamente que todos os obstáculos são um ótimo degrau para crescermos, para nos tornarmos melhores pessoas e melhores nas nossas relações.

Nota final: esta história é inspirada numa história real, tendo sido alterados nomes, pessoas e factos, com vista a preservar a confidencialidade.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar