Desafio para 2017: Iniciar um processo de Walking Therapy

Como, onde e porque surgiu a Walking Therapy?

Tudo se iniciou nos anos 80 com o psiquiatra Thaddeus Kostrubala que, percebendo os vários benefícios da actividade física, associou a corrida à psicoterapia. Vários outros terapeutas foram adoptando esta associação, definindo alguns critérios e procurando suporte teórico. A Walking Therapy (Walk and Talk para os americanos), tal como hoje é concebida e praticada, tem como percursor Clay Cockrell que em 2004, em Nova York iniciou a divulgação da sua forma de praticar psicoterapia, via internet. Desde então muitos outros terapeutas têm optado por esta prática.

Walking Therapy constituiu-se como abordagem terapêutica por três motivos principais:

1) A necessidade sentida por parte dos psicoterapeutas de aumentar o leque de opções para os seus clientes (situações de impasse no progresso da psicoterapia, clientes com alguma dificuldade no contacto visual ou em estarem sentados muito tempo);

2) A necessidade por demais já identificada de introduzir a prática de uma actividade física;

3) O “défice de natureza”. Este é um termo introduzido por Burls (2005), utilizado para explicar a desconexão dos seres humanos relativamente à natureza, motivada pelo facto de o trabalho e mesmo de o tempo livre serem cada vez mais passados em ambientes fechados e, ainda, pela dependência cada vez mais incutida da utilização do carro para as diferentes deslocações. A evolução tecnológica e a crescente urbanização contribuem ainda para este défice de natureza.

Em que consiste?

As intervenções terapêuticas utilizadas são as tradicionais e dependem da orientação específica de cada psicoterapeuta. A Walking Therapy tem como componentes centrais a actividade física, a natureza e a informalidade, estando esta última associada à familiaridade das caminhadas para a grande maioria das pessoas, ao facto de se tratar de um contexto menos formal quando comparado com o espaço de consultório.

Limitações

Tal como tudo na vida as consultas de Walking Therapy apresentam algumas limitações, nomeadamente as condições meteorológicas. Contudo, em Portugal esta questão não é tão pertinente, dado o clima temperado do qual beneficiamos; por outro lado, um casaco um pouco mais quente e um guarda-chuva poderão ser acrescentados aos ténis confortáveis utilizados durante a sessão.

As questões da confidencialidade são também apontadas pelos não praticantes como delicadas, dada a possibilidade de tanto o cliente como o terapeuta encontrarem alguém conhecido durante a sessão. Porém, McKinney (2011) refere no seu estudo que nenhum dos entrevistados apontou este como um obstáculo a esta modalidade. Quanto à minha experiência, os resultados vão no mesmo sentido do estudo, isto é, os meus clientes não se sentem em risco quanto aos princípios da confidencialidade.

Benefícios

Pensadas as limitações, concentremo-nos nos benefícios, que são inúmeros e já com suporte científico, em resultado de algumas investigações realizadas. A Walking Therapy permite desde logo uma melhoria da saúde física, nomeadamente a diminuição do risco de aumento de peso, de hipertensão, de doenças cardíacas, de diabetes.

De acordo com Martinsen (2008), a actividade física contribui também para uma melhoria da saúde mental, na medida em que diminui os sintomas de depressão e ansiedade, bem como reduz o risco de se desenvolver depressão.

Existem também benefícios resultantes do contacto com a natureza, comprovados por Mayer et al. (2009), que nos dizem que interagir com a natureza melhora a nossa capacidade cognitiva e a capacidade para reflectir sobre os problemas.

Walking Therapy possibilita ainda uma maior consciência corporal e, com tal, uma mais fácil percepção da forma como os sintomas de stress se manifestam fisicamente. Nas situações em que tal não acontecia, pode haver uma melhoria no auto-cuidado, através da introdução da actividade física.

Mais especificamente no que concerne os benefícios terapêuticos da Walking Therapy, McKinney (2011) confirmou alguns dados que importa destacar: os assuntos relevantes são mais rapidamente abordados, os problemas são encarados com uma maior clareza, identificando-se novos insights (momentos de auto-revelação), que possibilitam um foco mais específico na solução. A relação terapêutica estabelece-se mais rapidamente.

Como surgiu em mim esta ideia?

No seu estudo, McKinney (2011) identificou os seguintes motivos principais para os terapeutas optarem pela Walking Therapy: experiências pessoais, o exemplo de outros terapeutas que já a praticam, o desejo de sair do espaço de consultório e a necessidade de oferecer opções aos clientes. Foram precisamente estes os motivos que estiveram na base da minha decisão de enveredar por esta modalidade terapêutica. Desde muito jovem que pratico longas caminhadas na companhia de amigos ou mesmo sozinha. Esta foi sempre uma experiência muito enriquecedora, na medida em que de todas as vezes me permite um re-olhar sobre situações de vida, motivação para a tomada de decisão, bem como um maior bem-estar global e um profundo sentimento de revigoração.

Exactamente por estes motivos, no âmbito do trabalho comunitário que exerço, fui integrando esta estratégia de caminhar, em moldes terapêuticos, com algumas pessoas que se encontravam deprimidas e em situações de impasse que dificultavam a tomada de decisão. A constatação dos resultados positivos conduziu-me a alguma pesquisa e esta, por sua vez, levou-me ao encontro com psicoterapeutas que passaram por experiências semelhantes à minha e com resultados de investigação que comprovam o que eu já sentia.

Assim, cresceu em mim a necessidade de formalizar esta abordagem em Portugal e de a dar a conhecer ao maior número de pessoas possível que dela possam beneficiar.

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