Amor e Cuidar

Porque 5 Novembro é Dia Nacional do Cuidador Informal, porque eu tenho um carinho e admiração IMENSOS por todos os Cuidadores com quem me tenho cruzado, senti falta de voltar a publicar algo no meu blog

Em Agosto, no âmbito dos ‘Encontros na Canícula – Literatura, Escrita e Pensamento’, a Isabela Figueiredo entregou um conto aos participantes: ‘Ordem do Dia’ e pediu-nos para o ‘reescrevermos’ de uma forma mais quentinha. Eu escrevi: ‘O que é o Amor?’

Deixo-vos ambos, bem como as minhas perguntas…

“Ordem do dia

Acordo às 4&20 para assear Kátia tentando não acordá-la, senão começa a gritar aqueles palavrões sem sentido.

Às 5&30 ela desperta e dou a primeira refeição, por sonda endogástrica.

Às 8, são os primeiros cuidados com a tamponagem.

Às 8&40 faço a higiene completa, o banho de leito e massagem no corpo.

Às 9, chegaria o fisioterapeuta, mas aprendi a série e Kátia tem colaborado melhor nos últimos cinco anos.

Às 10, Kátia toma água com ajuda do guincho improvisado. Posso retirá-la da cama e sentá-la.

Às 10&30, descemos para o jardim do prédio. Todos gostam de nós. Não gostamos das crianças.

Às 12&30, mais alimentação enteral.

Às 14, temos de voltar para a cama. Levo os panos para a máquina. É feito novo asseio.

Às 15, recebe o suco de cenoura e viro-a para o lado da luz, do oratório.

16&10: os medicamentos para dor. E as duas injeções.

17&40: Kátia gosta de ouvir FM. Ligo a rádio.

18: volto e rezo o terço. Ela fecha os olhos com força. Melhor assim. Antes, ficava agitada e a gente podia imaginar que chorava.

Está mesmo dormindo?

Às 20, começa a novela na TV. Kátia abre os olhos. Viro-a outra vez e ela pode ficar de frente para a vida de verdade.

21&30: sua respiração é profunda enquanto dorme. É preciso segurar sua cabeça durante a noite. Pode se afogar na própria saliva.

De janeiro a janeiro.

A bala entrou por aquela janela ali e acertou Kátia jogando videogame aqui, no dia dos seus doze anos. Médico nem padre nem pastor botavam fé de que completaria 22 de idade. A festa foi ontem. Um repórter viria fotografá-la e a arrumei toda, de aniversário.

Não veio, caiu uma ponte, ou foi um presidente, atiraram noutra pessoa, no papa, não sei.”

“O que é o Amor?

Amor. O que é o Amor? É acção? É funcionalidade? É emoção? É cuidar? É estar? É dar e receber? É só dar? É só receber? Há muitos anos que procuro a resposta. Talvez não desde logo, quando uma bala me imobilizou para sempre. Aí tinha esperança e ainda era muito nova. Mas, à medida que fui crescendo… O que é crescer? Fui-me questionando sobre esta palavra. Já tenho quase tantos anos de ‘não expressão’ de Amor, como aqueles que tive em que o exprimia de forma muito ingénua. Sim, porque até aos 12 anos de idade, o que sabemos nós sobre o Amor?

Há cerca de 5 anos percebi que não adiantava exprimir o meu desconforto, o meu desejo de voar dali. Senti que o meu Pai precisava de mim. Precisava de se sentir a Amar-me… Amar-me? Sentia a premência de cuidar de mim. E sentia que só ele sabia os melhores cuidados durante os movimentos da fisioterapia, por exemplo. Ajudei-o a sentir-se confiante a fazê-lo sem a colaboração da profissional. É mesmo muito quentinho para o meu coração ver o quão se sente realizado de cada vez que, com muito carinho me destapa, me massaja as pernas, me ajuda a movimentá-las, fazendo o mesmo com os braços, o resto do corpo. E a música… Se vocês pudessem sentir como o ar fica tão mais tranquilo, leve, arejado, quase alegre, quando ele ouve música… Depois de muito pensar, consegui criar movimentos na minha expressão facial que lhe transmitissem a ideia de que também eu gostava de ouvir transístor. Será que gosto? Gosto, porque isso lhe traz serenidade. E, ele precisa de se sentir tranquilo. O seu dia a dia é duríssimo. Sempre pendente de mim.

Tenho outra pergunta: o que é a verdade? Porque é que o meu Pai me diz que o que se passa nas novelas é a vida de verdade? O que o levou a ficar tão triste por a nossa vida não ser transmitida na televisão? Será que ela seria mais verdade se passasse no ecrã? Se passasse a ser comentada por pessoas que nos desconhecem?

Para mim, a verdade é o Amor, o Amor que sinto pelo meu Pai. O meu Amor tão silencioso e, em simultâneo tão agido, apesar das limitações físicas, que me permite alimentar a razão de viver do meu Pai. Será que ele me Ama? Será que ele se Ama e precisa de encontrar um significado para a sua vida? Amor. O que é o Amor? É acção? É funcionalidade? É emoção? É cuidar? É estar? É dar e receber? É só dar? É só receber?”

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