Quando o isolamento social não é novidade

Ontem, em sessão, com o João, procurei reflectir em conjunto sobre este início de pensamento que tem ocupado, em muito, a minha mente e coração, ao longo deste último mês.

No dia em que decretaram o período de contingência, eu pensei: ‘Bolas, logo agora! Logo agora que o João estava a fazer um percurso ascendente no sentido de se ir desligando da sua fobia social e de ir saindo da sua depressão. Logo agora, com tanto progresso conseguido!!! Como é que irá ser? Qual será agora o meu papel? Que orientação poderei encontrar, em conjunto com o João, para conseguirmos levar a psicoterapia a bom porto, evitando novo retrocesso?’

Não tem sido fácil para nenhum dos dois e, falamos sobre isso. Estamos juntos há mais de um ano e alguns avanços foram sendo conseguidos, porém, igualmente, houve alguns recuos, próprios de uma psicoterapia. Tendo um deles, mais grave, culminado com um internamento hospitalar em psiquiatria. Este último, apenas há 3 meses. O João estava agora a readaptar-se às tarefas no seu emprego e ao dia-a-dia em casa com a sua companheira.

O relacionamento consigo próprio, com a mulher com quem é casado há 8 anos, com a família alargada, com os colegas de trabalho e os poucos amigos, seria agora o próximo passo. Como dá-lo? Como dar esse primeiro passo e seguintes, fazer caminho, sem a Walking Therapy (saber mais), que se tem revelado como uma ferramenta bastante útil e positiva com o João, na medida em que o exercício físico e o contacto com a natureza têm um papel muito significativo na melhoria de alguns sintomas mais depressivos e de ansiedade? Por outro lado, a Walking Therapy tem igualmente contribuído para a diminuição dos receios do João no contacto com as pessoas, dado que, terapeuticamente, optamos por caminhar no Paredão do Estoril e não, em locais mais isolados. Com a recomendação “Fique em casa”, o João conseguiu a ‘permissão governamental’ para o seu mais profundo desejo: ficar em casa e não se cruzar com nenhum outro humano a não ser a sua companheira.

Assim, não sendo possível voltar a recorrer a esta ferramenta terapêutica, teremos de nos reinventar, procurar alternativas. Teremos de encontrar soluções!

Esta é parte da minha história, da minha relação terapêutica com o João. Tenho a certeza de que não somos os únicos a passar por isto. Eu própria tenho outros clientes individuais, casais e mesmo famílias para quem este período se constitui como uma possível ameaça para a evolução do processo terapêutico. Muito à minha semelhança, não vou aqui dar sugestões de estratégias a adoptar. Essas surgem na relação única entre psicoterapeuta e cliente. No entanto, também muito à minha semelhança, gostaria de partilhar que acredito profundamente que todos os obstáculos são um ótimo degrau para crescermos, para nos tornarmos melhores pessoas e melhores nas nossas relações.

Nota final: esta história é inspirada numa história real, tendo sido alterados nomes, pessoas e factos, com vista a preservar a confidencialidade.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Deixe um comentário