Cuidadores formais e informais: uma nova capacidade para serem belos

Muito se tem falado sobre a sobrecarga a que estão expostos os cuidadores informais que se vêem a braços com o encerramento dos Centros de Dia. Essa realidade também ocupa o meu pensamento e as minhas acções. Contudo, hoje, sinto falta de falar com os cuidadores informais cujos familiares se encontram nos lares e, também, com os cuidadores formais que se dedicam dia e noite à promoção do bem-estar desses mesmos familiares.

Impressionante a forma como esta situação que vivemos nos torna ainda mais comunidade, ainda mais família, mais unidos, apesar de separados fisicamente. Porque digo isto? Porque quando não é possível, por uma infinidade de razões, ter em casa um familiar, tornando-se necessário o seu lar passar a ser um Lar e, se deixa de ter a possibilidade de o visitar todos os dias, de lhe ir levar o iogurte grego com papaia, de ajudá-lo a fazer uma caminhada nos corredores, de lhe tocar, de lhe contar como estão em casa as sementeiras de tomate deste ano. Quando tudo isto deixa de ser possível, pelas medidas de contingência impostas sim, mas necessárias, há alguém, um cuidador formal que é envolvido. Que deixa de estar em casa com os seus familiares, colocando-se em risco a si e à sua família, para poder prestar os cuidados de higiene, saúde e afectivos a estes familiares, que não são os seus directos, mas que passam a ser os seus de coração. E, a família cresce!

Sabem o que vos digo? Não estou a inventar! O que escrevi é o que sinto e o que vivencio com as partilhas que vou tendo em sessão, tanto com cuidadores informais, como com cuidadores formais. Escuto-os a ambos. São vários e todos diferentes, no entanto, com dois sentimentos comuns: o da culpabilidade e o da dedicação, sentimentos estes que se conjugam de formas por vezes não muito salutares, criando sintomas de ansiedade e depressão, sentimentos de medo e de falta de esperança, que podem levar a atitudes incompreensíveis para muitos.

Queridos cuidadores, informais e formais, peço-vos, tirem uns minutos para parar, escolham alguém da vossa confiança e exprimam tudo o que estão a sentir ‘sem amarras, nem prisões’. Exponham-no, tal como o estão a sentir. Sim, estão zangados com a situação que estamos a viver. Sim, sentem que é uma injustiça. Dói, dói muito. Eu sei. Sei também, porém, que são dedicados e que, mesmo compreendendo o vosso sentir de culpabilidade, tal não se aplica a esta situação. Não podem fazer nada quanto à missão para a qual estão destacados neste momento: seja ela a de estar afastados fisicamente do vosso familiar que está no Lar ou a de estar longe da vossa família que está em casa, enquanto trabalham.

Despeço-me com uma frase que me faz muito sentido e um pedido: o de estarmos disponíveis para a transformação que esta pandemia nos pode proporcionar e que William C. Hannan nos sugere – “Sei que esta transformação é dolorosa, mas não te estás a desmoronar. Estás apenas a entrar em algo diferente, com uma nova capacidade para seres belo.”

PS: Para questões de ordem prática sugiro que consultem: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/intervencao_psicologica_estruturas_residenciais_pessoas_idosas_1.pdf?fbclid=IwAR3eiMCNuUbASbLNQuDJ7B7tWgexMs0jlfT_hiSr6USaaXO_1lxllRT-mjk

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Há amor na nossa relação, faltava cultivá-lo

Esta semana, em sessão por videochamada, a Carlota, muito feliz, partilhou: ‘Patrícia, o Martim disse-me que sente que, desde que nos encontramos em período de quarentena, estamos a trabalhar melhor em equipa’. Procurei, com a Carlota, perceber o que motivaria a tal. Primeira resposta, imediata, foi: ‘O estarmos mais tempo juntos’.

A Carlota, investigadora pós-doutoramento em história, trabalhava maioritariamente a partir de casa, apenas com algumas deslocações à universidade e a bibliotecas. Ao passo que o Martim trabalhava longe de casa e, a seguir ao trabalho, ainda tinha as suas actividades desportivas com amigos, chegando já bem perto da hora do jantar, com a sensação de que a Carlota teria passado o dia em versão ‘dondoca’. Agora, estando também ele em casa, percebeu o quanto a mulher com quem se casou há 20 anos trabalha, com um grande ritmo de concentração e empenho. A Carlota não o referiu, porém, eu senti que o Martim voltou a admirá-la. Esta componente tão importante de uma relação conjugal estava perdida na azáfama do dia a dia que cada um levava.

Mais, sabem o que é que a Carlota me disse? ‘Sabe Patrícia, há amor na nossa relação, faltava cultivá-lo’. E, é isso que estão a fazer agora. Usando um dom que todos temos e que por vezes teimamos em não o deixar emergir dos locais onde se encontra escondido pela pressão quotidiana a que nos sujeitamos ou… nos deixamos sujeitar?

Ainda nesta linha, sabem outra reflexão a que a Carlota e eu chegámos? A relacionada com um outro aspecto fundamental numa relação conjugal: o respeito, mesmo nos aspectos mais básicos: respeito pelo espaço do outro, que anteriormente era bastante invadido pelas rotinas de ‘pressa’ impostas, como o simples exemplo de acender a luz do quarto de manhã para se despachar, não respeitando o facto de o outro elemento poder querer descansar mais um pouco. Agora, enquanto um faz o seu curso online, o outro, por forma a promover o silêncio em casa, adapta a sua actividade ao horário de silêncio que é importante manter nesse período. Há também uma rotina doméstica que passou a ser partilhada mais naturalmente, talvez, também, por uma maior percepção do que há para fazer.

Este foi um exemplo real (com as devidas alterações por respeito à confidencialidade) que senti falta de partilhar, por forma a ajudar outros casais a pensarem-se positiva e criativamente. Por outro lado, sinto que esta é também uma demonstração do potencial da orientação sistémica (como aquela que pratico): mesmo quando, em psicoterapia, não temos ambos os elementos, que será sempre o desejável, é possível trabalhar o casal com a pessoa que vem à terapia, produzindo efeitos benéficos no ‘sistema’ conjugal.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Mensagem para as famílias

Queridas famílias,

Hoje, reforço o que venho sentindo na minha prática profissional e na minha vida pessoal: que há uma forte proximidade, unicidade e, acima de tudo, que todas as famílias possuem competências extraordinárias. Sim, tenho noção de que estes tempos podem trazer consequências negativas para muitas famílias, contudo, o meu olhar centra-se em todas as potencialidades que podem surgir desta adversidade. O filósofo espanhol Miguel Unamuno diz: “Em geral, não são as nossas ideias que nos fazem optimistas ou pessimistas, mas é o nosso optimismo ou pessimismo que faz as nossas ideias.” (‘Do sentimento trágico da Vida’). Sejamos optimistas!

Algum empenho será necessário. A crise oferece a oportunidade para o crescimento, não o próprio crescimento. Com a crise, podemos tornar-nos mais hábeis para lidar com as tensões da vida. Transformações positivas podem ser alcançadas, quando permitimos que o desequilíbrio inicial – que é negativo, mas breve (se pensarmos em toda nossa longevidade) e transitório – dê lugar a uma reorganização familiar, que é gradual, porém, também mais duradoura. Acredito que o que não nos mata nos torna mais fortes. Acredito que a vida é enriquecida pela dificuldade e que o amor se torna mais forte quando requer esforço.

Não me sai naturalmente sugerir estratégias para cada família viver estes tempos. Estratégias de Amor. Admiro demasiado a especificidade, a autenticidade, as competências de cada família, para entrar em generalizações que podem ser úteis para algumas, mas não para outras. Queridas famílias, acima de tudo, peço-vos que acreditem no vosso potencial. Sei que, por vezes, pode ser difícil acreditar que o têm, uma vez que pode estar oculto no meio de tantas tensões que já vivíamos no nosso dia-a-dia e que agora podem ser potenciadas (apenas se o permitirmos) por esta situação que todos estamos a viver. No entanto, todas as famílias são competentes!

Se, porventura, estiver a ser difícil darem o pontapé de saída para estas conquistas, podem contar comigo (online) para, tal como diz Guy Ausloos (em A competência das Famílias), mergulhar no mistério e encontro da vossa família. Não para resolver problemas e corrigir erros e sim para, em conjunto, encontrar soluções até então impossíveis de encontrar.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Cuidadores: Mestres na arte de viver

Quando senti falta de pensar e escrever sobre (e para) os cuidadores de pessoas com doenças crónicas, comecei por realizar um exercício de brainstorming, no qual me surgiram, envolvidas por um sentir de carinho imenso, palavras como: amor, dedicação, entrega, solidariedade, missão, resiliência, criatividade, coragem, sobrecarga, multifunções, persistência. A si, quais surgem?

Sejam quais forem, acredito que concordará comigo: os cuidadores são mestres na arte de viver. Assim, neste período tão desafiante, no qual todos, sem excepção, nos vemos confrontados com uma doença ou com a possibilidade da mesma e, simultaneamente, com a necessidade de cuidar dos nossos familiares, procuremos retirar as melhores aprendizagens que estas pessoas extraordinárias têm para nos dar. E como podemos fazê-lo? Telefonando a um cuidador, dando-lhe colo e, ao mesmo tempo, solicitando que partilhe connosco toda a sua sabedoria de mestre. Que nos ensine como se pode, por exemplo, praticar amor por alguém que nem sempre esteve lá para nós. Como se pode ser resiliente, ficando em permanência em casa, abdicando de tantas e tantas actividades que davam prazer. Como se ganha coragem para fazer coisas nunca antes pensadas (como uma filha dar banho ao pai)? Como é que em apenas 24h se podem assumir tantas funções distintas e, também, como se consegue ser persistente, fazer o mesmo, dia após dia.

Sim, quanto mais penso, mais confirmo: para sobrevivermos à Covid-19, a tudo o que emocionalmente desperta em nós, será importante recorremos aos cuidadores como mestres. Eles é que têm toda a sabedoria de que necessitamos neste momento da nossa vida. Agora sim, queridos cuidadores do meu coração, agora sim, penso que finalmente o vosso papel vai ser devidamente valorizado.

Porém, tal como todos sabemos ‘Não há bela sem senão’ e, o ‘senão’ dos cuidadores é a pouca atenção dada ao seu autocuidado, ao seu bem-estar. Assim, aqui, gostaria de pedir a todos que sejam ‘egoístas sensatos’, tal como nos ensina o Dalai Lama em O livro da alegria: alcançar a felicidade num mundo em mudança, onde se lê: “Se não cuidarmos de nós, não conseguimos sobreviver. Precisamos de fazê-lo. Devemos ter um egoísmo sensato e não um egoísmo imponderado. O egoísmo imponderado significa pensarmos apenas em nós próprios, não querer saber dos outros, pressionar os outros, explorar os outros. De facto, cuidar dos outros, é, em última análise, a forma de descobrir a nossa própria alegria e ter uma vida feliz”.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Abraço: mistério, encontro, crescimento

Há uns tempos alguém me perguntou que tipo de terapeuta sou?

Sobre este tema muito posso dizer porém escolhi o dia de hoje – Dia do Abraço, para responder com recurso a poucas palavras: enquanto terapeuta entrego-me à relação e, com a minha subjectividade emocional, vou sentindo o coração de quem tem a nobreza de comigo partilhar a sua intimidade. Através deste encontro de sentires vão-se elaborando novas reflexões, novas narrativas e, concomitantemente, novas formas de agir promotoras de maior bem-estar. A consolidação destes processos efectiva-se em muitos momentos de abraço – plenos de mistério, encontro e crescimento.

“O abraço é uma longa conversa que acontece sem palavras. Tudo o que tem de ser dito soletra-se no silêncio, e ocorre isto que é tão precioso e afinal tão raro: sem defesas, um coração coloca-se à escuta de outro coração.” (in Revista Expresso, 22/01/2016, José Tolentino de Mendonça)

À procura de novas histórias

Estudos recentes sobre a neurobiologia cerebral apontam para a “necessidade de criar, na psicoterapia, um espaço de vivência e construção de afectos e significados positivos, histórias e narrativas não-problema (…). Espaço este que contribuirá para que o sofrimento deixe de ser visto como fixo e abrangente e possa ser encarado como uma representação de experiências que podem ser examinadas, endereçadas e alteradas.” (Sequeira, J. Narrativa, Mudança e Processo Terapêutico, 2012).

A realidade à qual acedemos encontra-se por nós ordenada. Sem o sabermos fazemos constantemente referência a saberes partilhados, sejam eles de ordem familiar, científica ou religiosa. “Esta calibragem contínua da percepção é tão habitual que pertence aos automatismos do pensamento. Pelo menos de modo intermitente, é essencial tomar consciência destes automatismos de que somos dependentes, se queremos ter a oportunidade de fazer evoluir a nossa visão da ‘realidade’. Este é o interesse das experiências que nos fazem sair do quotidiano quer sejam psicoterapêuticas, artísticas, espirituais, etc.” (Philippe Caillé e Yveline Rey, em Os Objectos Flutuantes)

Foi tendo isto presente que surgiu a ideia de participar no Atelier ‘Autorretrato, retrato de sociedade e retratos de sonhos’ da Casa das Histórias da Paula Rego, com as participantes de ambos os Grupos de Suporte que modero – o de Cuidadores de pessoas com doenças crónicas e, o de Pessoas com sintomatologia depressiva. Isto é, potenciar o trabalho do Grupo utilizando como veículo a relação com a arte. Sair dos automatismos do pensamento quotidiano através de uma experiência artística. Sair das quatro paredes da sala do Grupo para uma experiência nova, que se pretendia positiva e promotora de novas histórias.

Para a Casa das Histórias o objectivo deste atelier é: “Uma visita a três momentos sobre a máscara do Eu, o Eu que olha para o mundo à sua volta com argúcia, e o Eu onírico. Evidencia-se a importância dos figurinos e dos acessórios na criação de ambientes narrativos.”

O objectivo da nossa participação estava, obviamente, enquadrado no anteriormente pré-definido porém, ampliava-se ao que tem vindo a ser trabalhado no seio de ambos os Grupos. Pretendia-se aumentar o leque de oportunidades para se pensarem, para reflectirem sobre as narrativas que têm vindo a utilizar na construção do seu Eu, que têm vindo a ser o mote e a fundamentação das suas relações de proximidade e de distância. Será que, a partir de novas possibilidades de reconstrução das suas histórias, se activam novos desejos? Reactivam-se sonhos antigos?

Começámos a visita com um confortável momento de boas-vindas proporcionado pela guia da Casa. Sim, estávamos na casa, no lar da Paula Rego, o que nos permitia logo à partida, o reconhecimento de um espaço que também poderia ser o nosso, ou não. A Paula escolheu para a arquitectura da sua casa umas chaminés. Nós o que escolheríamos para a nossa? O que é que já existe na nossa casa que desejamos manter? O que nos traz conforto? Desconforto? O que está lá, é importante e, até à data, ainda não tínhamos dado valor?

Foi-nos contado que apesar de ter esta casa, a Paula Rego não vive em Portugal. Para a Paula é importante viver fora para ter um distanciamento facilitador da sua reflexão acerca das suas teias relacionais. Os seus filhos, o seu marido, a sua história, as suas relações, a cultura do seu país, alimentam o seu trabalho. Nós o que utilizamos como estratégia para esse distanciamento? Por outro lado, quais as pessoas que fazem parte da nossa teia relacional? O que fundamenta as narrativas que criamos? Quais os valores que estão na sua base?

Na exposição a Paula desafia-nos a pensar a relação entre os animais e os humanos, a pensar nos animais como substitutos, como figuras que qualificam os humanos. Conta-nos a sua narrativa através das fábulas, deixando mais uma vez em aberto a possibilidade do colectivo, permitindo que nos identifiquemos, que criemos as nossas narrativas com pontos em comum, com pontos divergentes à sua e à das fábulas.

Sinto falta de partilhar que nesta sala viajei para um livro do qual gosto particularmente, O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands “Se eu quisesse definir os seres humanos numa única frase, esta serviria: os seres humanos são os animais que acreditam nas histórias que contam acerca deles próprios. Os seres humanos são animais crédulos. O lobo é a clareira da alma humana. O lobo revela o que está escondido nas histórias que contamos sobre nós – o que essas histórias mostram mas não dizem.”

Tal como Rowlands nos diz, nós somos as histórias que contamos acerca de nós. O significado que vamos dando às nossas histórias, ao nosso eu, vai sendo negociado nas nossas relações, no meio e na cultura em que crescemos e vivemos. Habituamo-nos a questionarmo-nos pouco. Cremos nas nossas histórias, afeiçoamo-nos a elas. Contudo, é importante termos em linha de conta que um pressuposto básico das histórias é a possibilidade de escolha. Entre tantos elementos que compõe uma determinada situação – os intervenientes, as causalidades, as consequências, etc – as possibilidades de escolha para a construção da nossa narrativa relativamente a essa situação são inúmeras. Nós optamos por uma. Pela nossa história.

A determinada altura, enquanto investigava as fábulas para o seu trabalho, a Paula Rego sentiu-se bloqueada. Sentia-se demasiado presa à história que era contada, para conseguir criar. Tal como nos acontece por vezes, estamos demasiadamente presos à nossa história, à nossa narrativa, o que nos impede de avançar, de criar novas possibilidades de caminhos. Porém, uma nova história que alguém contou à Paula, sobre um macaco, um urso e um cão sem uma orelha, permitiu-lhe desbloquear. Com tal deixou de ter a rigidez de recontar as fábulas, as narrativas já feitas e passou a desenhar de forma fluida, seguindo o que ia sentindo permitindo-se recriar a todo o momento.

As pessoas que procuram os Grupos ou mesmo a Terapia Individual ou Familiar trazem consigo histórias com as quais não conseguem viver, ou em que tal é muito difícil. O Grupo ou o Terapeuta oferecem-se como o lobo, como essa clareira da alma humana, onde é possível encontrar outras leituras mais tranquilizadoras, mais adaptativas, mais promotoras de crescimento.

Nas semanas seguintes ao atelier, em cada um dos Grupos, tem-se partilhado a partir do vivenciado nesta experiência artística onde se abriram clareiras para encontrar novas histórias.

Jamais deixe de sonhar!

A dream you dream is only a dream –

a dream you dream together is reality.

Yoko Ono

 

O que é o enamoramento? Quem se enamora? Por quem nos enamoramos?

Estas são algumas das questões que ocupam o pensamento e o coração de muitos solteiros e enamorados, e que se tornam ainda mais prementes com a aproximação do dia de S Valentim. Pretendo aqui, levantar ainda mais questões a partir destas. Quem sabe se este questionamento, que se deseja circular, não trará as respostas que procuramos?

O que é o enamoramento?

O enamoramento é um estado emocional que, nas sábias palavras de Alberoni no seu livro O Mistério do Enamoramento, “se assemelha ao do nascimento: a surpresa, o despertar súbito, o medo, a esperança, as lágrimas, o riso, a alegria. O enamorado não é um embrião apático, é um recém-nascido que deseja, grita, chora e encontra depois a beatitude alimentando-se da boca, da pele, do corpo da pessoa amada, ao qual se abandona e onde se perde.”

Nesta fase cria-se um tempo e um espaço míticos. Determinadas datas e lugares são considerados sagrados pelo par enamorado; estão ligados à origem da paixão e são comemorados tendo a função de reactivar os sentimentos.

As diferenças individuais não contam, as atitudes que desagradam não são relevantes. O que realmente importa é o desejo de um pelo outro. É uma fase importante que facilita o encontro e que possibilita um terreno fértil de vivências psicológicas profundas de troca afetiva. E, essa troca afectiva, essa nutrição relacional, nas palavras de Juan Luis Linares (2010) tem 3 componentes:

A componente cognitiva é a da consciência, totalmente polarizada no ser amado; produz-se um excesso de reconhecimento ou de hiperconfirmação do enamorado. O outro, idealizado, converte-se num conjunto de virtudes sem defeito algum.

Na componente emocional predomina a paixão, a sua exaltação domina o estado afectivo de base.

Na componente pragmática,  o desejo é premente e a sua plena realização sexual leva a experiências de máximo prazer, raiando o êxtase. Quanto à disponibilidade para a gestão da vida quotidiana, costuma ser total, produzindo-se uma entrega mútua, solidária e de grande generosidade.

Quem se enamora?

Enamora-se quem está predisposto a isso. Isto significa que tem que existir a convicção de não termos nada a perder. É a perspetiva do ‘nada e tudo’ à nossa frente. É um misto de abismo e de rede de suporte. Arriscamos?

Diz-nos Whitaker, em Dançando com a família “A vida é maluca! Apressamo-nos na busca de intimidade e envolvimento pessoal, apenas para morrer de medo quando a possibilidade aparece”. E, porque temos medo? O que nos amedronta é a noção de que iremos abandonar todas as nossas certezas, as nossas seguranças, as nossas âncoras serão desatracadas, os nossos castelos ruirão por terra. Sabemos que a nova estrutura “desafia a antiga nas raízes, rebaixa-a a algo que não tem valor”, como nos diz Alberoni em Enamoramento e Amor. Estamos disponíveis para “separar aquilo que estava unido e unir o que se encontrava dividido”?

Caros solteiros, o que está a bloquear o enamoramento arrojado?

 

Por quem nos enamoramos?

Os opostos atraem-se? As semelhanças unem-nos? O passado persegue-nos? O enamoramento é acidental e casuístico ou há alguma ordem do e no caos dos palheiros?

Skinner e Cleese (1990, cit. Relvas e colaboradores, 2000) defendem que a beatitude veiculada pelo enamoramento decorre precisamente das semelhanças que encontramos na pessoa por quem nos enamoramos. “Para que essas semelhanças sejam mutuamente descobertas, não é necessários que as pessoas falem sobre elas, pois todos emitem sinais que, mesmo sem serem compreendidos, são sentidos e ‘entendidos’ pelo outro.” (Relvas, 1996).

Jung e Alberoni (2010) defendem a tese da atracção dos opostos. São as diferenças que estimulam, que criam novas oportunidades, que permitem a consumação de desejos não satisfeitos apenas pelo próprio. Enamoramo-nos por alguém com características complementares às nossas que nos permitem integrar melhor a nossa personalidade, como a peça que faltava para finalizar o nosso puzzle.

Virginia Satir (1991) acrescenta ao defendido por Skinner e Cleese, alguma influência da história familiar vivenciada seja no modelo relacional dos pais, seja no modelo relacional com os irmãos. Na medida em que é com os irmãos, que formamos o nosso primeiro grupo de iguais. Com eles experimentamos as primeiras relações de cumplicidade e competição, de negociação e liderança, aprendemos a gerir conflitos. Por sua vez, o modelo de casal que é proporcionado pelos pais pode, igualmente, ter influência, mesmo em situações envoltas de alguma paradoxalidade, uma vez que há tendência para a reconstrução do conhecido.

Caros enamorados, qual a vossa perspectiva?

Desafio para 2017: Iniciar um processo de Walking Therapy

Como, onde e porque surgiu a Walking Therapy?

Tudo se iniciou nos anos 80 com o psiquiatra Thaddeus Kostrubala que, percebendo os vários benefícios da actividade física, associou a corrida à psicoterapia. Vários outros terapeutas foram adoptando esta associação, definindo alguns critérios e procurando suporte teórico. A Walking Therapy (Walk and Talk para os americanos), tal como hoje é concebida e praticada, tem como percursor Clay Cockrell que em 2004, em Nova York iniciou a divulgação da sua forma de praticar psicoterapia, via internet. Desde então muitos outros terapeutas têm optado por esta prática.

Walking Therapy constituiu-se como abordagem terapêutica por três motivos principais:

1) A necessidade sentida por parte dos psicoterapeutas de aumentar o leque de opções para os seus clientes (situações de impasse no progresso da psicoterapia, clientes com alguma dificuldade no contacto visual ou em estarem sentados muito tempo);

2) A necessidade por demais já identificada de introduzir a prática de uma actividade física;

3) O “défice de natureza”. Este é um termo introduzido por Burls (2005), utilizado para explicar a desconexão dos seres humanos relativamente à natureza, motivada pelo facto de o trabalho e mesmo de o tempo livre serem cada vez mais passados em ambientes fechados e, ainda, pela dependência cada vez mais incutida da utilização do carro para as diferentes deslocações. A evolução tecnológica e a crescente urbanização contribuem ainda para este défice de natureza.

Em que consiste?

As intervenções terapêuticas utilizadas são as tradicionais e dependem da orientação específica de cada psicoterapeuta. A Walking Therapy tem como componentes centrais a actividade física, a natureza e a informalidade, estando esta última associada à familiaridade das caminhadas para a grande maioria das pessoas, ao facto de se tratar de um contexto menos formal quando comparado com o espaço de consultório.

Limitações

Tal como tudo na vida as consultas de Walking Therapy apresentam algumas limitações, nomeadamente as condições meteorológicas. Contudo, em Portugal esta questão não é tão pertinente, dado o clima temperado do qual beneficiamos; por outro lado, um casaco um pouco mais quente e um guarda-chuva poderão ser acrescentados aos ténis confortáveis utilizados durante a sessão.

As questões da confidencialidade são também apontadas pelos não praticantes como delicadas, dada a possibilidade de tanto o cliente como o terapeuta encontrarem alguém conhecido durante a sessão. Porém, McKinney (2011) refere no seu estudo que nenhum dos entrevistados apontou este como um obstáculo a esta modalidade. Quanto à minha experiência, os resultados vão no mesmo sentido do estudo, isto é, os meus clientes não se sentem em risco quanto aos princípios da confidencialidade.

Benefícios

Pensadas as limitações, concentremo-nos nos benefícios, que são inúmeros e já com suporte científico, em resultado de algumas investigações realizadas. A Walking Therapy permite desde logo uma melhoria da saúde física, nomeadamente a diminuição do risco de aumento de peso, de hipertensão, de doenças cardíacas, de diabetes.

De acordo com Martinsen (2008), a actividade física contribui também para uma melhoria da saúde mental, na medida em que diminui os sintomas de depressão e ansiedade, bem como reduz o risco de se desenvolver depressão.

Existem também benefícios resultantes do contacto com a natureza, comprovados por Mayer et al. (2009), que nos dizem que interagir com a natureza melhora a nossa capacidade cognitiva e a capacidade para reflectir sobre os problemas.

Walking Therapy possibilita ainda uma maior consciência corporal e, com tal, uma mais fácil percepção da forma como os sintomas de stress se manifestam fisicamente. Nas situações em que tal não acontecia, pode haver uma melhoria no auto-cuidado, através da introdução da actividade física.

Mais especificamente no que concerne os benefícios terapêuticos da Walking Therapy, McKinney (2011) confirmou alguns dados que importa destacar: os assuntos relevantes são mais rapidamente abordados, os problemas são encarados com uma maior clareza, identificando-se novos insights (momentos de auto-revelação), que possibilitam um foco mais específico na solução. A relação terapêutica estabelece-se mais rapidamente.

Como surgiu em mim esta ideia?

No seu estudo, McKinney (2011) identificou os seguintes motivos principais para os terapeutas optarem pela Walking Therapy: experiências pessoais, o exemplo de outros terapeutas que já a praticam, o desejo de sair do espaço de consultório e a necessidade de oferecer opções aos clientes. Foram precisamente estes os motivos que estiveram na base da minha decisão de enveredar por esta modalidade terapêutica. Desde muito jovem que pratico longas caminhadas na companhia de amigos ou mesmo sozinha. Esta foi sempre uma experiência muito enriquecedora, na medida em que de todas as vezes me permite um re-olhar sobre situações de vida, motivação para a tomada de decisão, bem como um maior bem-estar global e um profundo sentimento de revigoração.

Exactamente por estes motivos, no âmbito do trabalho comunitário que exerço, fui integrando esta estratégia de caminhar, em moldes terapêuticos, com algumas pessoas que se encontravam deprimidas e em situações de impasse que dificultavam a tomada de decisão. A constatação dos resultados positivos conduziu-me a alguma pesquisa e esta, por sua vez, levou-me ao encontro com psicoterapeutas que passaram por experiências semelhantes à minha e com resultados de investigação que comprovam o que eu já sentia.

Assim, cresceu em mim a necessidade de formalizar esta abordagem em Portugal e de a dar a conhecer ao maior número de pessoas possível que dela possam beneficiar.