No âmbito da Comunidade de Leitura, foi-nos lançado o desafio de darmos a ler a uma Amiga Secreta um livro que tenha marcado a nossa vida. Associada à leitura vinha a sugestão de escrevermos uma Carta à nossa Amiga, sobre a obra lida. A mim, calhou-me: ‘O Diário da Nossa Paixão’ de Nicholas Sparks. Partilho aqui a minha carta, até como encerramento do mês dedicado à Demência:
QUERIDA Amiga Secreta 🌻, começo por agradecer a oportunidade de ler um livro que tanto significado terá dado à tua vida.
Ao longo do livro, fui procurando perceber o que tanto terá contribuído para tal. Será o lado romântico da história, como de um conto de fadas se tratasse? A ideia da alma gémea? Do felizes para sempre? Será a dificuldade que a Allie teve na relação com os Pais, sobretudo com a Mãe, por esta querer ditar/escrever o seu percurso de vida? Será a exigência que foi para Allie a tomada de decisão relativa ao seu próprio futuro? Será a forma resiliente e focada com que Noah, foi crescendo financeiramente ao longo da sua vida? Será a forma como Noah suportou a rejeição de Allie, quando eram jovens? Serão as características de Cuidador de Noah, tanto em relação ao seu Pai como em relação a Allie no fim de vida? Que outros ‘Serás?’ me estão a faltar? Quais são serão os teus ‘Foi por este(s) motivo(s)?’
Relativamente a mim, agradeço a oportunidade de ter lido um Romance leve, descontraído, pois, parando para pensar um pouco, já não o fazia há mesmo muito tempo. Foi também uma boa oportunidade para me desafiar a evitar pensar em tudo o que pode estar subentendido/oculto. Em tudo o que é sentido e não é falado. Contudo, não resisto e, verdade seja dita, acho pouco provável que alguns sentimentos menos bons estivessem totalmente ausentes, caso este casal fosse real. Não digo, de todo, que fosse necessário o conflito, contudo, coloco as hipóteses de a Allie viver com alguma culpabilidade e dúvida relativamente ao facto de ter tomado ou não a melhor decisão e, por seu turno, o Noah com alguma insegurança e também culpabilidade, por ter afastado a Allie de uma vida mais social e cosmopolita. Tudo isto faz parte dos casais. A única diferença é que, é importante ser falado, por forma a não deixar construir muros que, a determinada altura ficam intransponíveis. A este propósito sugiro ver a conferência: ‘Alain de Botton: On Love (Sydney Opera House)’
Ouvindo e reflectindo sobre tudo o que Alain de Botton nos diz ficam várias questões nas nossas mentes. A que mais me prende neste contexto é a das ideias que nos são incutidas, desde muito cedo, do Amor romântico, das histórias da Disney e que, de alguma forma, penso que este livro é outro exemplo. Ler histórias como estas faz-nos sonhar, contudo, gostaria que não nos iludissem. O Amor é dos sentimentos.., Não, melhor: o Amor, é mesmo O sentimento mais bonito que existe no mundo. No entanto, tem muitos desafios e é extraordinariamente exigente, caprichoso. Reformulo, tiro o ‘no entanto’ e digo: o Amor é O sentimento mais bonito que existe no mundo, também, por ser exigente e caprichoso. Neste sentido gostaria de citar Alba de Céspedes em ‘O caderno proibido’: ‘«O amor exige demasiado tempo», dizia Clara. «Porque o amor não existe, na verdade: há que inventá-lo todos os dias, a cada momento, e estar sempre à altura da própria invenção. É difícil…»’
Por fim e porque, em tantas situações o aparecimento da Doença de Alzheimer, ou outra Demência marcam com tanta intensidade e significado o fim… Mas, que fim?
Digo eu, o fim de um ciclo e o recomeço de outro, tal como nos diz Miguel Torga
“Recomeça… se puderes
Sem angústia
Sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses
De nenhum fruto queiras só metade.”
E, nesse sentido, a história de Noah e Allie é mesmo muito bonita, tal como a de tantos e tantos outros casais que conheci e conheço. O Amor vence tudo, mesmo as limitações físicas do próprio Cuidador.
Mais uma vez, MUITO obrigada QUERIDA Amiga Secreta por me teres desafiado no amor que sinto por ti, dando a ler: ‘O Diário da Nossa Paixão’ de Nicholas Sparks