Decorria o ano de 1972, quando, a meio do mesmo, precisamente no Dia Mundial da Criança, nasço. Da minha infância e adolescência, com muita pena minha, resistem poucas memórias. Mas, uma certeza interna, um conforto muito quentinho é o de que a leitura esteve presente em todos os momentos destas etapas da minha vida.
Em casa da minha Mãe, na sala, uma das paredes era ‘forrada’ a livros. Literalmente, de baixo a cima e, da esquerda à direita, só livros!
Em casa dos meus Avós paternos uma das salas, mais do que idêntica a esta! Eram mesmo as 4 paredes que se encontravam decoradas desta forma. O hobbie preferido do meu Avô era encadernar edições especiais, nomeadamente a do centenário do nascimento de Eça de Queiroz – haverá beleza maior do que ter tido a oportunidade recente de reler o Primo Bazílio, aqui? Já o meu Avô materno tinha o hábito de assinar os seus livros na 1ª folha. Faço o mesmo! Faz-me sentir mais próxima dele!
E, muito, muito importante, o amor da minha querida Avó Luísa, não apenas pela leitura, como também pela escrita. Nomeadamente de Poesia, tendo escrito alguns poemas dedicados a filhos e netos.
Já me estou a desviar… Falava eu no meu amor pela leitura. Penso que a primeira responsável foi: Enid Blyton. Perdia-me entre a ‘As gémeas’ e ‘Os cinco’. Que malandrices e aventuras tive oportunidade de viver! Sempre fui a mais ‘betinha’ do meu grupo de amigos, daquelas que fazem tudo certinho – Não há paciência! Mas, As Gémeas permitiam-me fugir à regra. E Os Cinco… Esses…, davam-me as ideias para o que eu podia inventar, explorar… sempre que ia para Sortelha para casa dos meus Avós. Os livros ‘Patrícia’ de Julie Campbell, eram uma necessidade, não apenas pelo meu nome na capa, como, coincidência das coincidências: a sua autora nasceu no dia 1 de Junho!!!
Entretanto, fui crescendo e passando para outros que havia lá em casa, como ‘As memórias de Adriano, da Yourcenar, ‘A Pérola’ do Steinbeck, ‘Terra Bendita’ da Pearl Buck, ‘Amor nos tempos de cólera’ de Gabriel Garcia Marquez e tantos, tantos outros… Eram horas e horas a ler – em casa, no carro, em todo o lado – como a Rádio Comercial!
Até que me ‘cruzo’ com a Jane, sabem, a ‘Jane Eyre’ de Charlotte Brontè… Quem sabe se terá sido, também aí, que começou a germinar em mim o amor por me dedicar a pessoas que têm uma infância e adolescência desprovidas de afecto e que, na sequência de tal, desenvolvem uma busca constante pelo amor ideal, sem se darem a oportunidade de olharem para si e aí encontrarem equilíbrio e amor próprio?
Depois…, vieram as leituras obrigatórias… Ah! ‘Os Maias’ que enlevo, que sonho, que alegria, que viagem bonita para o mundo do Eça. E, ainda para mais, ter a oportunidade de, contemporaneamente, ir a algumas óperas no São Carlos, imaginar-me enquanto personagem da época… Saber que estava a pisar o mesmo chão, ver o mesmo teatro que os olhos do Eça também tinham perscrutado… Contudo, como obrigatório, veio também Miguel Torga…. ‘Bichos’, confesso que ainda não reli, sei que eventualmente preciso de lhe dar essa oportunidade passados agora 25 anos. Porém, na altura foi um verdadeiro tormento. Um mau estar imenso… Ao ponto de, ainda hoje sentir a enorme agonia da mulher que entra em trabalho de parto à medida que sobe um monte. Senti demasiada crueza, acredito que, muito fiel à dureza da realidade, mas muito intenso para mim que tanto desejava ser Mãe. O que me leva, a outra reflexão: recentemente a tão adorada Comunidade de Leitura da Biblioteca Pública de Évora, da qual tenho o enorme privilégio de ser membro, desafiou-se a ler ‘Aparição’ de Virgílio Ferreira. Que experiência deliciosa, agora aos 50! Aos 17, sei que teria muita dificuldade em entender o livro e que me poderia ter feito algum mal. Tenho dificuldade em entendê-lo como livro para ser estudado no secundário, sem que exista um bom enquadramento e suporte emocional para a sua compreensão.
Estou já a falar da leitura colectiva… A ela quererei voltar, mas não sem primeiro partilhar a minha primeira experiência de leitura em grupo. E essa foi, ainda no secundário, quando dois grandes amigos e eu, começámos a ler ‘As brumas de Avalon’. Que experiência bombástica, os 4 volumes. A partilha, a ansiedade, a alegria sentida… Não nos contivemos, precisámos de organizar uma viagem rumo a Stonendge e ao túmulo do Rei Artur… E, tudo isto, com 21 aninhos. E eu, agora, ansiosa por a minha filha de 23, viver fora e se fartar de viajar, conhecer mundo… Realmente, como mudam as nossas perspectivas em função do ponto onde nos encontramos…
Falava eu na minha filha. Com o nascimento dos meus filhos, o início da vida activa, o enorme amor e dedicação que tive ao trabalho, aos diferentes locais por onde passei, os livros passaram para um plano algo distante… Até que, descobri… Espera, eu tomo o pequeno-almoço sempre mais cedo do que todos em casa. De manhã, estou sempre muito desperta e activa. Ler durante o pequeno-almoço, vai dar-me toda uma outra alegria e bem-estar para o dia. E, assim foi, que se instaurou este meu ritual, que para quem convive comigo já sabe: é ‘sagrado’. Por quem comecei? Pelo meu tão adorado Irvin D Yalom. Sentia-me sequiosa de romances e, em simultâneo, de livros que me aproximassem do meu trabalho clínico: ‘A psicologia do Amor’, ‘Quando Nietzsche chorou’, ‘A cura de Schopenhauer’, … Ou, de Viktor Frankl ‘O homem em busca de um sentido’…
Ups! Apercebi-me agora de que saltei um passo bastante significativo. Sabem, aquela hora deliciosa de deitar os nossos filhos? Bem, isso para mim, já é passado! Ainda no outro dia foi o meu filho Tomás que me veio dar o beijinho de Boa Noite à cama! Mas, dizia eu, esse momento de ternura, de relação, de tranquilidade, de passagem para outro lugar, onde podemos descansar e recuperar a energia para o dia seguinte. O que podemos ter que seja tranquilizador e não activador como algumas conversas que se têm por vezes à hora de jantar? E, neste momento, qual é uma das melhores estratégias que podemos utilizar? Uma, que nos possibilita transmitir valores, reflexões, histórias que nos permitem sonhar, nos fazem acreditar em nós?
O livro. Esse mesmo! A leitura. Para quem já leu a uma criança, sabe/sente o valor imenso destes momentos. Promovam-no! Não sei como será a experiência de ter 3 ou mais filhos, mas ter dois, com 3 anos de diferença, foi também desafiante. Exigia a escolha de livros que fossem estimulantes para ambos e, claro, a negociação: uma noite deitava-me na cama de um e, na noite seguinte, na cama do outro. Estes eram dos momentos a 3 que mais amávamos. E… tenho que confessar aqui o meu Guilty Pleasure. Quando percebi que os dois já estavam preparados para ouvirem os livros de ‘Os Cinco’!!! Não vos consigo dizer com toda a certeza, mas muito provavelmente fui eu a quem mais adorou estes momentos, pois pude reler esses livros, que sei que não iriam ser uma prioridade, atendendo ao enorme volume da minha TBR – TBR aquelas siglas modernas que agora se usam, no fundo, a minha Lista de Livros Por Ler! Bem, mas nem tudo são partilhas positivas. Preciso confessar aqui algo infame: não gosto, ou talvez não entenda o ‘Principezinho’ de Saint-Exupéry. Mas, lido mal, com esta verdade. Então, pensei que lendo o livro aos meus filhos, eles me ajudassem a ver, sentir, compreender as mensagens… Não conseguiram…
Não conseguiram com ‘O Principezinho’, contudo, encontraram eles próprios outras leituras e desafiaram-me. Dois exemplos maravilhosos que me envolveram muitíssimo. A sugestão da Teresa: ‘O mundo de Sofia’ de Jostein Gaarder e, do Tomás: ‘Aristóteles e Dante descobrem os Segredos do Universo’ de Benjamin Alire Sáenz. Ambos, livros que tenho recomendado a adolescentes que acompanho em psicoterapia e, de quem tenho tido, mais do que uma boa adesão, a partilha de reflexões sobre outros aspectos que eu ainda não havia identificado no livro
E, foi também aqui, que comecei a sentir o enorme potencial da literatura na psicoterapia. Na realidade foi um sentir muito pouco consciente na altura. Acontecia com uma naturalidade tão ingénua, até. Ouvia as partilhas que me iam fazendo e, pensava: que extraordinário que seria se esta pessoa lesse o livro x… O quanto é que determinada leitura poderia:
• estimular sentires
• ajudar a sedimentar ideias
• provocar a vivência de emoções que por vezes estão encapsuladas
• afastar a ideia de que somos só nós a sentir determinadas coisas
• estimular a acção/o fazer diferente
• promover a verbalização de algumas coisas que até então não estavam claras no pensamento
• amplificar a reflexão e análise de alguns aspectos do nosso comportamento
• ajudar a compreender as atitudes de outros para connosco
• estimular a imaginação, o sonho, o querer sair da rotina
• um sem fim de possibilidades…
Os livros, imperativamente, têm que estar no meu consultório. A meio da sessão levanto-me e, lá vou eu buscar o livro x. Por norma, sei sempre onde está. O meu lado obsessivo é bastante tranquilizador. Organiza-me e organiza os livros por temas. Se estou com alguém que se vê bastante embrulhado com questões traumáticas, Sugiro ‘A Bailarina de Auschwitz’ de Edith Eger. Alguém com tendência depressiva, da minha geração, com relações delicadas com os Pais, a auto-biografia do Bruce Springsteen. Alguém que tenha um familiar num lar, ‘Misericórdia’ da Lídia Jorge, ou, se gostam de banda desenhada, para este mesmo tema: ‘O mergulho’ de Séverine Vidal, com ilustração de Victor Pinel. Uma mulher nos seus 40, ensandwichada entre o cuidar da mãe/avó, um casamento algo desgastado, filhas na adolescência, ‘Eliete’ da Dulce Maria Cardoso…. Enfim, estes são apenas alguns exemplos. Sendo que, é importante clarificar, não são taxativos, isto é, nem sempre os recomendo, pois cada pessoa/cada situação, tem demasiados contornos e é por demais complexa para que o que faça sentido a uma pessoa faça igualmente sentido a outra que está a vivenciar algo semelhante
Acontece que, este processo não foi/não tem sido, unidireccional. De forma muito natural, começaram a surgir as sugestões dos próprios clientes. E, tem sido com muitos deles, muitos Pais de crianças ainda pequenas, que descobri o ENORME potencial da Literatura Infantil! Que coisa bonita! Como é que se consegue este poder imenso de, com tão pouco texto, acompanhado de imagens bonitas, bem sei, mas com tão pouco de palavra escrita, chegar a emoções e pensamentos tão profundos?
Já me alonguei bem mais do que era a minha intenção inicial. Porém, não posso terminar, sem desejar a todos LINDAS viagens pelo mundo das emoções e reflexões que a leitura nos proporciona
