SuperViver ou sobreviver? – a Aceitação

Gostaria de partilhar o Caso Prático que debati hoje com os participantes no 7º Encontro de Profissionais “Cuidados a Prestar na Demência – Uma abordagem Prática e Integrada”, da Alzheimer Portugal

Família: Maria 55 anos, seu marido de 75, com Doença de Alzheimer (diagnosticada há 1 ano) e filha de ambos de 21 anos (a finalizar licenciatura)

A experiência que a Maria teve no Grupo Psicoeducativo em que participou foi, segundo a própria, muito enriquecedora. Até à data, apenas tinha tido oportunidade de se informar sobre Demência na internet e em atendimentos psicossociais com uma assistente social. A Maria refere que esses movimentos foram importantes até porque a conduziram à participação no Grupo. Acrescenta que o Grupo lhe permitiu tomar maior consciência que não está sozinha e que existem outras pessoas a passar por algo semelhante. Foi também muito importante, pois uma das outras participantes cuidava do marido com o mesmo tipo de Demência, mas há mais anos, o que ajudou a Maria a perspectivar a possível evolução da doença e a reflectir sobre forma como os filhos dessa senhora acompanhavam os pais.

Quero SuperViver, Patrícia”, dizia-me a Maria numa sessão, após partilhar a sua reflexão em como a aceitação e convivência com a Demência do marido se trata de um processo: “aceitar e fazê-lo com Amor trata-se de um processo, não basta clicar num interruptor para pôr a funcionar. Foi necessário passar pelo Grupo Psicoeducativo e recorrer à Psicoterapia Individual para ir permitindo que tantas coisas que foram ditas no Grupo passassem a fazer sentido. Sei que não vou e, não quero, abdicar de dar continuidade à história do meu marido, em tudo o que esteja ao meu alcance. Contudo, quero igualmente SuperViver. Percebi que andava a sobreviver e que isso me tornava uma pessoa amargurada, uma pessoa de mal com a vida de uma forma geral e de mal com os outros.

Na sessão anterior falámos na minha dificuldade em dar um abraço, lembra-se? Por coincidência, ou não… Será que há coincidências?… A minha irmã veio visitar-me e deu-me um. Retribui gestualmente, mas sem entrega. Uns dias mais tarde a minha irmã telefonou e.. falou do abraço. Sabe o que me disse? Que sentiu que eu não estive nesse abraço e que até identifica o motivo. Pedi para me explicar um pouco melhor.

Aí, a minha irmã partilhou que sente que eu estou desiludida com ela, pois não me acompanhou a consultas com o meu marido nem em tantas outras situações. Que estou desiludida com a minha filha pois não me tem apoiado em tantos momentos, no cuidar do pai e também, que estou desiludida, por motivos diferentes, com o meu marido. Patrícia, que BOM que foi este momento com a minha irmã. Sabe o que eu lhe respondi? ‘Sabes mana, eu não precisava que me acompanhasses às consultas e nessas outras situações críticas que referes, aí, eu precisava ser forte, não dar espaço à emoção. Eu teria precisado, e continuo a precisar que te sentes comigo no sofá para eu poder encostar a minha cabeça, que façamos, juntas, uma caminhada, como a que fizemos no outro dia. E sim, tens razão, por vezes ainda me é difícil aceitar que o meu marido está com uma Demência. Eu sei que não é da responsabilidade dele. Mas, não deixo de me sentir abandonada enquanto esposa e enquanto mulher’. Sabe Patrícia, uns dias depois desta conversa com a minha irmã, dei por mim a abraçar o meu marido. Não sei há quantos meses, ou melhor, anos, eu não o fazia!”

A sessão continuou… Já bem no fim a Maria partilhou algo que tem vindo a adiar, mas que tal como a própria diz: “Se é para estar nisto – referindo-se à Psicoterapia – é para ir fundo!”. Partilhou então a angústia que tem sentido no campo da intimidade com o seu marido, pois este manifesta o seu desejo sexual pela sua mulher, porém desde há muito que a Maria se confronta com uma dualidade, não entendendo bem ou não conseguindo separar o seu papel de cuidadora, do da sua função de esposa. Por outro lado, estão também presentes as questões da sua sexualidade enquanto mulher jovem e, tantas e tantas outras coisas. Estávamos no fim da sessão, este é o tema com que, muito provavelmente, iniciaremos a próxima. Contudo, mesmo antes de terminarmos a Maria pergunta-me: “Patrícia, será que o meu mau feitio matinal com o meu marido e com a minha filha está relacionado com o que acabei de partilhar?

(Este caso é inspirado numa história real, tendo sido alterados nomes, pessoas e factos, com vista a preservar o anonimato da família)

Deixe um comentário