Esta semana, em sessão por videochamada, a Carlota, muito feliz, partilhou: ‘Patrícia, o Martim disse-me que sente que, desde que nos encontramos em período de quarentena, estamos a trabalhar melhor em equipa’. Procurei, com a Carlota, perceber o que motivaria a tal. Primeira resposta, imediata, foi: ‘O estarmos mais tempo juntos’.
A Carlota, investigadora pós-doutoramento em história, trabalhava maioritariamente a partir de casa, apenas com algumas deslocações à universidade e a bibliotecas. Ao passo que o Martim trabalhava longe de casa e, a seguir ao trabalho, ainda tinha as suas actividades desportivas com amigos, chegando já bem perto da hora do jantar, com a sensação de que a Carlota teria passado o dia em versão ‘dondoca’. Agora, estando também ele em casa, percebeu o quanto a mulher com quem se casou há 20 anos trabalha, com um grande ritmo de concentração e empenho. A Carlota não o referiu, porém, eu senti que o Martim voltou a admirá-la. Esta componente tão importante de uma relação conjugal estava perdida na azáfama do dia a dia que cada um levava.
Mais, sabem o que é que a Carlota me disse? ‘Sabe Patrícia, há amor na nossa relação, faltava cultivá-lo’. E, é isso que estão a fazer agora. Usando um dom que todos temos e que por vezes teimamos em não o deixar emergir dos locais onde se encontra escondido pela pressão quotidiana a que nos sujeitamos ou… nos deixamos sujeitar?
Ainda nesta linha, sabem outra reflexão a que a Carlota e eu chegámos? A relacionada com um outro aspecto fundamental numa relação conjugal: o respeito, mesmo nos aspectos mais básicos: respeito pelo espaço do outro, que anteriormente era bastante invadido pelas rotinas de ‘pressa’ impostas, como o simples exemplo de acender a luz do quarto de manhã para se despachar, não respeitando o facto de o outro elemento poder querer descansar mais um pouco. Agora, enquanto um faz o seu curso online, o outro, por forma a promover o silêncio em casa, adapta a sua actividade ao horário de silêncio que é importante manter nesse período. Há também uma rotina doméstica que passou a ser partilhada mais naturalmente, talvez, também, por uma maior percepção do que há para fazer.
Este foi um exemplo real (com as devidas alterações por respeito à confidencialidade) que senti falta de partilhar, por forma a ajudar outros casais a pensarem-se positiva e criativamente. Por outro lado, sinto que esta é também uma demonstração do potencial da orientação sistémica (como aquela que pratico): mesmo quando, em psicoterapia, não temos ambos os elementos, que será sempre o desejável, é possível trabalhar o casal com a pessoa que vem à terapia, produzindo efeitos benéficos no ‘sistema’ conjugal.
Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar