Cuidadores: Mestres na arte de viver

Quando senti falta de pensar e escrever sobre (e para) os cuidadores de pessoas com doenças crónicas, comecei por realizar um exercício de brainstorming, no qual me surgiram, envolvidas por um sentir de carinho imenso, palavras como: amor, dedicação, entrega, solidariedade, missão, resiliência, criatividade, coragem, sobrecarga, multifunções, persistência. A si, quais surgem?

Sejam quais forem, acredito que concordará comigo: os cuidadores são mestres na arte de viver. Assim, neste período tão desafiante, no qual todos, sem excepção, nos vemos confrontados com uma doença ou com a possibilidade da mesma e, simultaneamente, com a necessidade de cuidar dos nossos familiares, procuremos retirar as melhores aprendizagens que estas pessoas extraordinárias têm para nos dar. E como podemos fazê-lo? Telefonando a um cuidador, dando-lhe colo e, ao mesmo tempo, solicitando que partilhe connosco toda a sua sabedoria de mestre. Que nos ensine como se pode, por exemplo, praticar amor por alguém que nem sempre esteve lá para nós. Como se pode ser resiliente, ficando em permanência em casa, abdicando de tantas e tantas actividades que davam prazer. Como se ganha coragem para fazer coisas nunca antes pensadas (como uma filha dar banho ao pai)? Como é que em apenas 24h se podem assumir tantas funções distintas e, também, como se consegue ser persistente, fazer o mesmo, dia após dia.

Sim, quanto mais penso, mais confirmo: para sobrevivermos à Covid-19, a tudo o que emocionalmente desperta em nós, será importante recorremos aos cuidadores como mestres. Eles é que têm toda a sabedoria de que necessitamos neste momento da nossa vida. Agora sim, queridos cuidadores do meu coração, agora sim, penso que finalmente o vosso papel vai ser devidamente valorizado.

Porém, tal como todos sabemos ‘Não há bela sem senão’ e, o ‘senão’ dos cuidadores é a pouca atenção dada ao seu autocuidado, ao seu bem-estar. Assim, aqui, gostaria de pedir a todos que sejam ‘egoístas sensatos’, tal como nos ensina o Dalai Lama em O livro da alegria: alcançar a felicidade num mundo em mudança, onde se lê: “Se não cuidarmos de nós, não conseguimos sobreviver. Precisamos de fazê-lo. Devemos ter um egoísmo sensato e não um egoísmo imponderado. O egoísmo imponderado significa pensarmos apenas em nós próprios, não querer saber dos outros, pressionar os outros, explorar os outros. De facto, cuidar dos outros, é, em última análise, a forma de descobrir a nossa própria alegria e ter uma vida feliz”.

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Deixe um comentário