Cuidadores formais e informais: uma nova capacidade para serem belos

Muito se tem falado sobre a sobrecarga a que estão expostos os cuidadores informais que se vêem a braços com o encerramento dos Centros de Dia. Essa realidade também ocupa o meu pensamento e as minhas acções. Contudo, hoje, sinto falta de falar com os cuidadores informais cujos familiares se encontram nos lares e, também, com os cuidadores formais que se dedicam dia e noite à promoção do bem-estar desses mesmos familiares.

Impressionante a forma como esta situação que vivemos nos torna ainda mais comunidade, ainda mais família, mais unidos, apesar de separados fisicamente. Porque digo isto? Porque quando não é possível, por uma infinidade de razões, ter em casa um familiar, tornando-se necessário o seu lar passar a ser um Lar e, se deixa de ter a possibilidade de o visitar todos os dias, de lhe ir levar o iogurte grego com papaia, de ajudá-lo a fazer uma caminhada nos corredores, de lhe tocar, de lhe contar como estão em casa as sementeiras de tomate deste ano. Quando tudo isto deixa de ser possível, pelas medidas de contingência impostas sim, mas necessárias, há alguém, um cuidador formal que é envolvido. Que deixa de estar em casa com os seus familiares, colocando-se em risco a si e à sua família, para poder prestar os cuidados de higiene, saúde e afectivos a estes familiares, que não são os seus directos, mas que passam a ser os seus de coração. E, a família cresce!

Sabem o que vos digo? Não estou a inventar! O que escrevi é o que sinto e o que vivencio com as partilhas que vou tendo em sessão, tanto com cuidadores informais, como com cuidadores formais. Escuto-os a ambos. São vários e todos diferentes, no entanto, com dois sentimentos comuns: o da culpabilidade e o da dedicação, sentimentos estes que se conjugam de formas por vezes não muito salutares, criando sintomas de ansiedade e depressão, sentimentos de medo e de falta de esperança, que podem levar a atitudes incompreensíveis para muitos.

Queridos cuidadores, informais e formais, peço-vos, tirem uns minutos para parar, escolham alguém da vossa confiança e exprimam tudo o que estão a sentir ‘sem amarras, nem prisões’. Exponham-no, tal como o estão a sentir. Sim, estão zangados com a situação que estamos a viver. Sim, sentem que é uma injustiça. Dói, dói muito. Eu sei. Sei também, porém, que são dedicados e que, mesmo compreendendo o vosso sentir de culpabilidade, tal não se aplica a esta situação. Não podem fazer nada quanto à missão para a qual estão destacados neste momento: seja ela a de estar afastados fisicamente do vosso familiar que está no Lar ou a de estar longe da vossa família que está em casa, enquanto trabalham.

Despeço-me com uma frase que me faz muito sentido e um pedido: o de estarmos disponíveis para a transformação que esta pandemia nos pode proporcionar e que William C. Hannan nos sugere – “Sei que esta transformação é dolorosa, mas não te estás a desmoronar. Estás apenas a entrar em algo diferente, com uma nova capacidade para seres belo.”

PS: Para questões de ordem prática sugiro que consultem: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/intervencao_psicologica_estruturas_residenciais_pessoas_idosas_1.pdf?fbclid=IwAR3eiMCNuUbASbLNQuDJ7B7tWgexMs0jlfT_hiSr6USaaXO_1lxllRT-mjk

Patrícia Charters, Psicóloga e Terapeuta Familiar

Deixe um comentário