Estudos recentes sobre a neurobiologia cerebral apontam para a “necessidade de criar, na psicoterapia, um espaço de vivência e construção de afectos e significados positivos, histórias e narrativas não-problema (…). Espaço este que contribuirá para que o sofrimento deixe de ser visto como fixo e abrangente e possa ser encarado como uma representação de experiências que podem ser examinadas, endereçadas e alteradas.” (Sequeira, J. Narrativa, Mudança e Processo Terapêutico, 2012).
A realidade à qual acedemos encontra-se por nós ordenada. Sem o sabermos fazemos constantemente referência a saberes partilhados, sejam eles de ordem familiar, científica ou religiosa. “Esta calibragem contínua da percepção é tão habitual que pertence aos automatismos do pensamento. Pelo menos de modo intermitente, é essencial tomar consciência destes automatismos de que somos dependentes, se queremos ter a oportunidade de fazer evoluir a nossa visão da ‘realidade’. Este é o interesse das experiências que nos fazem sair do quotidiano quer sejam psicoterapêuticas, artísticas, espirituais, etc.” (Philippe Caillé e Yveline Rey, em Os Objectos Flutuantes)
Foi tendo isto presente que surgiu a ideia de participar no Atelier ‘Autorretrato, retrato de sociedade e retratos de sonhos’ da Casa das Histórias da Paula Rego, com as participantes de ambos os Grupos de Suporte que modero – o de Cuidadores de pessoas com doenças crónicas e, o de Pessoas com sintomatologia depressiva. Isto é, potenciar o trabalho do Grupo utilizando como veículo a relação com a arte. Sair dos automatismos do pensamento quotidiano através de uma experiência artística. Sair das quatro paredes da sala do Grupo para uma experiência nova, que se pretendia positiva e promotora de novas histórias.
Para a Casa das Histórias o objectivo deste atelier é: “Uma visita a três momentos sobre a máscara do Eu, o Eu que olha para o mundo à sua volta com argúcia, e o Eu onírico. Evidencia-se a importância dos figurinos e dos acessórios na criação de ambientes narrativos.”
O objectivo da nossa participação estava, obviamente, enquadrado no anteriormente pré-definido porém, ampliava-se ao que tem vindo a ser trabalhado no seio de ambos os Grupos. Pretendia-se aumentar o leque de oportunidades para se pensarem, para reflectirem sobre as narrativas que têm vindo a utilizar na construção do seu Eu, que têm vindo a ser o mote e a fundamentação das suas relações de proximidade e de distância. Será que, a partir de novas possibilidades de reconstrução das suas histórias, se activam novos desejos? Reactivam-se sonhos antigos?
Começámos a visita com um confortável momento de boas-vindas proporcionado pela guia da Casa. Sim, estávamos na casa, no lar da Paula Rego, o que nos permitia logo à partida, o reconhecimento de um espaço que também poderia ser o nosso, ou não. A Paula escolheu para a arquitectura da sua casa umas chaminés. Nós o que escolheríamos para a nossa? O que é que já existe na nossa casa que desejamos manter? O que nos traz conforto? Desconforto? O que está lá, é importante e, até à data, ainda não tínhamos dado valor?
Foi-nos contado que apesar de ter esta casa, a Paula Rego não vive em Portugal. Para a Paula é importante viver fora para ter um distanciamento facilitador da sua reflexão acerca das suas teias relacionais. Os seus filhos, o seu marido, a sua história, as suas relações, a cultura do seu país, alimentam o seu trabalho. Nós o que utilizamos como estratégia para esse distanciamento? Por outro lado, quais as pessoas que fazem parte da nossa teia relacional? O que fundamenta as narrativas que criamos? Quais os valores que estão na sua base?
Na exposição a Paula desafia-nos a pensar a relação entre os animais e os humanos, a pensar nos animais como substitutos, como figuras que qualificam os humanos. Conta-nos a sua narrativa através das fábulas, deixando mais uma vez em aberto a possibilidade do colectivo, permitindo que nos identifiquemos, que criemos as nossas narrativas com pontos em comum, com pontos divergentes à sua e à das fábulas.
Sinto falta de partilhar que nesta sala viajei para um livro do qual gosto particularmente, O Filósofo e o Lobo, de Mark Rowlands “Se eu quisesse definir os seres humanos numa única frase, esta serviria: os seres humanos são os animais que acreditam nas histórias que contam acerca deles próprios. Os seres humanos são animais crédulos. O lobo é a clareira da alma humana. O lobo revela o que está escondido nas histórias que contamos sobre nós – o que essas histórias mostram mas não dizem.”
Tal como Rowlands nos diz, nós somos as histórias que contamos acerca de nós. O significado que vamos dando às nossas histórias, ao nosso eu, vai sendo negociado nas nossas relações, no meio e na cultura em que crescemos e vivemos. Habituamo-nos a questionarmo-nos pouco. Cremos nas nossas histórias, afeiçoamo-nos a elas. Contudo, é importante termos em linha de conta que um pressuposto básico das histórias é a possibilidade de escolha. Entre tantos elementos que compõe uma determinada situação – os intervenientes, as causalidades, as consequências, etc – as possibilidades de escolha para a construção da nossa narrativa relativamente a essa situação são inúmeras. Nós optamos por uma. Pela nossa história.
A determinada altura, enquanto investigava as fábulas para o seu trabalho, a Paula Rego sentiu-se bloqueada. Sentia-se demasiado presa à história que era contada, para conseguir criar. Tal como nos acontece por vezes, estamos demasiadamente presos à nossa história, à nossa narrativa, o que nos impede de avançar, de criar novas possibilidades de caminhos. Porém, uma nova história que alguém contou à Paula, sobre um macaco, um urso e um cão sem uma orelha, permitiu-lhe desbloquear. Com tal deixou de ter a rigidez de recontar as fábulas, as narrativas já feitas e passou a desenhar de forma fluida, seguindo o que ia sentindo permitindo-se recriar a todo o momento.
As pessoas que procuram os Grupos ou mesmo a Terapia Individual ou Familiar trazem consigo histórias com as quais não conseguem viver, ou em que tal é muito difícil. O Grupo ou o Terapeuta oferecem-se como o lobo, como essa clareira da alma humana, onde é possível encontrar outras leituras mais tranquilizadoras, mais adaptativas, mais promotoras de crescimento.
Nas semanas seguintes ao atelier, em cada um dos Grupos, tem-se partilhado a partir do vivenciado nesta experiência artística onde se abriram clareiras para encontrar novas histórias.