Jamais deixe de sonhar!

A dream you dream is only a dream –

a dream you dream together is reality.

Yoko Ono

 

O que é o enamoramento? Quem se enamora? Por quem nos enamoramos?

Estas são algumas das questões que ocupam o pensamento e o coração de muitos solteiros e enamorados, e que se tornam ainda mais prementes com a aproximação do dia de S Valentim. Pretendo aqui, levantar ainda mais questões a partir destas. Quem sabe se este questionamento, que se deseja circular, não trará as respostas que procuramos?

O que é o enamoramento?

O enamoramento é um estado emocional que, nas sábias palavras de Alberoni no seu livro O Mistério do Enamoramento, “se assemelha ao do nascimento: a surpresa, o despertar súbito, o medo, a esperança, as lágrimas, o riso, a alegria. O enamorado não é um embrião apático, é um recém-nascido que deseja, grita, chora e encontra depois a beatitude alimentando-se da boca, da pele, do corpo da pessoa amada, ao qual se abandona e onde se perde.”

Nesta fase cria-se um tempo e um espaço míticos. Determinadas datas e lugares são considerados sagrados pelo par enamorado; estão ligados à origem da paixão e são comemorados tendo a função de reactivar os sentimentos.

As diferenças individuais não contam, as atitudes que desagradam não são relevantes. O que realmente importa é o desejo de um pelo outro. É uma fase importante que facilita o encontro e que possibilita um terreno fértil de vivências psicológicas profundas de troca afetiva. E, essa troca afectiva, essa nutrição relacional, nas palavras de Juan Luis Linares (2010) tem 3 componentes:

A componente cognitiva é a da consciência, totalmente polarizada no ser amado; produz-se um excesso de reconhecimento ou de hiperconfirmação do enamorado. O outro, idealizado, converte-se num conjunto de virtudes sem defeito algum.

Na componente emocional predomina a paixão, a sua exaltação domina o estado afectivo de base.

Na componente pragmática,  o desejo é premente e a sua plena realização sexual leva a experiências de máximo prazer, raiando o êxtase. Quanto à disponibilidade para a gestão da vida quotidiana, costuma ser total, produzindo-se uma entrega mútua, solidária e de grande generosidade.

Quem se enamora?

Enamora-se quem está predisposto a isso. Isto significa que tem que existir a convicção de não termos nada a perder. É a perspetiva do ‘nada e tudo’ à nossa frente. É um misto de abismo e de rede de suporte. Arriscamos?

Diz-nos Whitaker, em Dançando com a família “A vida é maluca! Apressamo-nos na busca de intimidade e envolvimento pessoal, apenas para morrer de medo quando a possibilidade aparece”. E, porque temos medo? O que nos amedronta é a noção de que iremos abandonar todas as nossas certezas, as nossas seguranças, as nossas âncoras serão desatracadas, os nossos castelos ruirão por terra. Sabemos que a nova estrutura “desafia a antiga nas raízes, rebaixa-a a algo que não tem valor”, como nos diz Alberoni em Enamoramento e Amor. Estamos disponíveis para “separar aquilo que estava unido e unir o que se encontrava dividido”?

Caros solteiros, o que está a bloquear o enamoramento arrojado?

 

Por quem nos enamoramos?

Os opostos atraem-se? As semelhanças unem-nos? O passado persegue-nos? O enamoramento é acidental e casuístico ou há alguma ordem do e no caos dos palheiros?

Skinner e Cleese (1990, cit. Relvas e colaboradores, 2000) defendem que a beatitude veiculada pelo enamoramento decorre precisamente das semelhanças que encontramos na pessoa por quem nos enamoramos. “Para que essas semelhanças sejam mutuamente descobertas, não é necessários que as pessoas falem sobre elas, pois todos emitem sinais que, mesmo sem serem compreendidos, são sentidos e ‘entendidos’ pelo outro.” (Relvas, 1996).

Jung e Alberoni (2010) defendem a tese da atracção dos opostos. São as diferenças que estimulam, que criam novas oportunidades, que permitem a consumação de desejos não satisfeitos apenas pelo próprio. Enamoramo-nos por alguém com características complementares às nossas que nos permitem integrar melhor a nossa personalidade, como a peça que faltava para finalizar o nosso puzzle.

Virginia Satir (1991) acrescenta ao defendido por Skinner e Cleese, alguma influência da história familiar vivenciada seja no modelo relacional dos pais, seja no modelo relacional com os irmãos. Na medida em que é com os irmãos, que formamos o nosso primeiro grupo de iguais. Com eles experimentamos as primeiras relações de cumplicidade e competição, de negociação e liderança, aprendemos a gerir conflitos. Por sua vez, o modelo de casal que é proporcionado pelos pais pode, igualmente, ter influência, mesmo em situações envoltas de alguma paradoxalidade, uma vez que há tendência para a reconstrução do conhecido.

Caros enamorados, qual a vossa perspectiva?

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